Renda fixa

Renda fixa nos EUA chama atenção. É hora de investir?

Taxa dos títulos do Tesouro dos EUA de 10 anos se aproximam dos 5%. O que isso tem a ver com você e seus investimentos?

Real e dólar. Foto: Adobe Stock
Relembre, a seguir, os principais fatos e frases que marcaram a e economia do Brasil e do Mundo na semana. Foto: Adobe Stock

Por Daniela Frabasile

Há muito tempo o mundo não vê os juros americanos rendendo tanto quanto hoje. Além de o Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) ter elevado rapidamente a taxa de juros de curto prazo da faixa de 0% a 0,25% para o nível de 5,25% a 5,50%, o mercado tem feito subir o rendimento das taxas de juros dos títulos mais longos. Nesta quinta-feira, 19/10, a taxa do T-Note de dez anos tocou 4,99%, a mais alta desde 2007.

O que isso tem a ver com você e seus investimentos? Muito. Com essa elevação, investidores de todo o mundo têm corrido para alocar seus recursos nos títulos públicos da dívida norte-americana.

“As taxas dos juros mais longos têm se elevado em consequência da percepção de juros altos por mais tempo e de uma discussão sobre a taxa de equilíbrio de longo prazo nos EUA”, explica Martin Iglesias, especialista líder em Investimentos e Alocação de Ativos do Itaú Unibanco.

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“Estamos falando dos juros nos EUA desde o começo do ano, mas cada vez parece que as máximas têm superado as barreiras. Isso tem acontecido porque, por mais que a inflação tenha cedido, a queda tem sido mais lenta do que o mercado esperava”, explica Larissa Frias, planejadora financeira do C6. 

Além disso, se no início do ano, muitos esperavam o início do ciclo de corte de juros ainda em 2023, essa hipótese tem ficado cada vez mais incerta. É a frase que tem sido repetida diversas vezes: a expectativa agora é de juros mais altos por mais tempo (higher for longer).

Outras questões que dão sustentação à elevação dos juros são o aumento do risco fiscal nos Estados Unidos, e as incertezas globais com os conflitos na Ucrânia e em Gaza, que tendem a afetar os vencimentos mais longos dos treasuries.

“Esses níveis de taxas apresentam uma oportunidade para investidores, tanto em títulos do tesouro dos EUA, como em títulos de empresas americanas com grau de investimento, que pagam alguns pontos acima da taxa de juros americana e que são resistentes em situações de desaceleração econômica”, afirma Iglesias, do Itaú.

Percepção de risco menor

Os títulos do tesouro americano não são buscados somente nos momentos em que as taxas estão elevadas, mas também em momentos de maior incerteza, quando investidores buscam ativos de menor risco.

E nesse momento, os dois fatores caminham juntos. Vivemos um cenário externo carregado de incógnitas, com conflitos entre Ucrânia e Rússia, Israel e Hamas, risco fiscal nos Estados Unidos, Europa em desaceleração e enorme incerteza sobre qual vai ser o desempenho da economia global.

Nos negócios e nas finanças, o rendimento dos treasuries americanos é usado como base, considerado um “ativo livre de risco”. Isso acontece pela força da economia norte-americana em relação às demais.

“É uma economia extremamente dinâmica, tem uma das melhores demografias na comparação com outros mercados desenvolvidos, com uma população jovem e um desenvolvimento tecnológico relevante”, diz Eduardo Grübler, gestor quantitativo da Warren.

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“Nada nos faz acreditar que os EUA não estarão bem daqui a 20 anos, e parece que vai acelerar seu diferencial em relação ao mundo”, afirma. Inclusive, diz ele, nos últimos 20 anos, o dólar é a moeda que mais se valorizou contra todas as demais.

“Em geral, investidores buscam rendimentos em dólar como reserva de valor há muito tempo. E em momentos em que vemos vários conflitos aumentando, isso fica mais forte”, diz ele.

Momento favorável

Tudo isso faz crescer a demanda pelos títulos do tesouro americano. A matemática é simples. Se investidores podem receber juros de 5% ao ano sem risco, para que apostar em ativos mais arriscados?

“Com a renda fixa nos EUA alcançando o patamar atual, é natural que houvesse maior procura. Especialmente nos Estados Unidos, isso não é o comportamento comum, já que há maior disposição para a renda variável. Mas é natural que o investidor corra atrás desses papéis com esse rendimento atípico” , afirma Larissa Frias, do C6.

“Sempre precisamos pensar no custo de oportunidade. Antes, tinha custo de oportunidade zero ou negativo, que era realidade até início de 2020. Isso mudou grosseiramente”, afirma Grübler, da Warren. “Com um rendimento real que temos hoje, nada justifica não investir agora. 

Por que tomar risco e ter alguma incerteza se tenho todo o poderio econômico americano me garantindo uma rentabilidade real interessante?”, questiona Grübler, da Warren.

Atenção: mesmo na renda fixa, há riscos envolvidos

Por mais que a renda fixa seja entendida pelos investidores como mais segura e conservadora do que a renda variável, é preciso ter em mente que há riscos e que é preciso tomar alguns cuidados.

Além dos treasuries, é possível investir em títulos privados de crédito. No entanto, é preciso estar atento aos riscos mais elevados. “Os títulos privados, os bonds, acabam seguindo a mesma tendência de elevação, por acompanharem o spread de crédito; Ou seja, eles pagam um percentual além das treasuries por conta do risco”, afirma Camilla Dolle, head de renda fixa da XP.

O primeiro, diz Frias, do C6, é com a qualidade do emissor daquele papel. Afinal, um título de renda fixa pressupõe uma dívida, o que envolve um risco de crédito (o risco de a empresa não pagar sua dívida no prazo estipulado).

Na dívida privada, ela avalia que o momento é de deixar de lado os papéis chamados high yield, aqueles com prêmio maior (maior diferença de rentabilidade sobre os títulos públicos). “Apenar da taxa mais elevada, eles têm qualidade de crédito mediana, e não temos visto uma boa relação risco-retorno”, explica.

“Temos buscado títulos high grade ou investment grade, aqueles que são emitidos por empresas de boa qualidade, e especialmente em setores como energia, financeiro e tecnologia, que são mais consolidados”.

E mesmo ao investir em títulos soberanos dos EUA, ainda há o risco de mercado. “Em sua maioria, são títulos prefixados, que são os que mais vão oscilar a depender das expectativas de mercado”, afirma Dolle, da XP.

Para os investidores brasileiros, ela lembra que ainda há o risco cambial. “A depender do que acontecer com o câmbio, isso pode ser positivo ou negativo para o investidor brasileiro”, diz. “Por outro lado, você vai estar exposto a uma moeda muito forte.

Para quem quer diversificar em termos de moeda, está procurando um porcentual na carteira exposto ao mercado americano e faz sentido para o perfil do investidor, por fazer sentido também investir em uma treasury”, diz Camilla Dolle.

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