Objetivos financeiros

ESPECIAL LGBTQIA+: Como essa empresária saiu das dívidas e se tornou especialista em finanças

A gaúcha Jéssica Trindade precisou atravessar diferentes barreiras em busca de indepedência financeira

Jéssica Trindade conta como saiu das dívidas com cartão de crédito e se tornou especialista em finanças. Foto: Arquivo pessoal/Instagram
Jéssica Trindade conta como saiu das dívidas com cartão de crédito e se tornou especialista em finanças. Foto: Arquivo pessoal/Instagram

Aos 18 anos, a gaúcha Jéssica Trindade se viu enrolada em dívidas com cartão de crédito. Era fascinante ter diferentes cartões para cada tipo de loja e ter um amplo limite de crédito, mas isso foi se revelando como uma “caixa tampada com mofo” que a enclausurou por um tempo. Hoje aos 30 anos, Jéssica saiu do endividamento e se tornou especialista em finanças comportamentais, além de contar com uma carteira diversificada de investimentos.

A trajetória dela nas finanças foi permeada por barreiras preconceituosas, como racismo, LGBTfobia e, também, por ter nascido na periferia de Cachoeirinha, uma das menores cidades da região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A cidade natal dela possui 136.258 mil habitantes, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esta matéria faz parte da série Especial LGBTQIA+🏳️‍🌈, uma iniciativa do Bora Investir. Ao todo, são quatro capítulos publicados toda sexta-feira durante o mês de junho, trazendo um olhar singular da população LGBTQIA+ e os desafios que enfrentam no universo dos investimentos e da educação financeira.

Confira as matérias anteriores da série:

ESPECIAL LGBTQIA+: Jovem transforma Selic e CDI em personagens para ensinar economês

ESPECIAL LGBTQIA+: Liberdade financeira como aspecto de saúde mental e segurança

💸Das dívidas à bonança

Filha mais velha entre três irmãos, Jéssica cresceu em uma comunidade de baixa renda em Cachoeirinha (RS) e não teve nenhum contato com educação financeira nesse período, o que a levou a se endividar muito cedo.

No Brasil, 78% dos trabalhadores estão com alguma dívida pendente, 29% estão com pagamentos em atraso há mais de um mês, e 43% possuem cobranças que travam até 50% ou mais da fonte de renda, de acordo com levantamento da VR em parceria com o Instituto Locomotiva.

“Eu sempre fui sonhadora com pés no chão, mas [com o endividamento] eu me sentia confinada dentro de uma caixa tampada e cheia de mofo. Até que busquei estudar e quitar as minhas dívidas com os cartões e sair do aperto”, lembra.

As dívidas começaram quando ela se encantou pelo cartão de crédito. E acabaram assim que ela descobriu como lidar melhor com o crédito. Parte disso ela passou enquanto encarava algumas barreiras.

“Eu tive que vencer o preconceito que as pessoas têm por eu ser preta, lésbica e da periferia, e que por isso eu teria que aceitar o meu destino do endividamento. Mas não. Eu disse não.”

Jéssica se aprimorou em economia. Começou os estudos em técnica administrativa e contabilidade, depois foi aprender mais sobre psicologia e economia comportamental. Atualmente, ela faz mentorias, palestras e interage nas redes sociais para difundir cada vez mais a educação financeira que tanto lhe fez falta na adolescência.

Autocuidado também é falar sobre dinheiro. As pessoas têm medo de falar sobre isso. Não é algo comum, mas deveria ser o assunto da roda de amigos, dos relacionamentos. Então, eu busco trazer essa discussão atrelada ao nosso comportamento para que fique mais fácil das pessoas entenderem como isso se aplica no cotidiano. Eu espero que as pessoas vejam prosperidade nas suas próprias escolhas em relação ao dinheiro, sem ter medo de falar sobre isso”, conta.

Ela diz que as pessoas se assustam com a sobrecarga de informações de educação financeira nas redes sociais. “Tem que ter cuidado e ponderar antes de publicar qualquer conteúdo, por causa do lugar de onde eu vim comparado com quem já nasceu com tudo. Isso é diferente e traz uma visão de mundo diferente. E eu mostro isso e as pessoas se identificam comigo.”

🏳️‍🌈Investimentos

Na área de investir, Jéssica brinca que costuma se aventurar em renda variável, mas com os pés no chão. “Gosto de fundos imobiliários. Gosto de brincar um pouco na renda variável, mas sou mais conservadora. Mantenho 70% do meu orçamento em renda fixa e outros 30% eu brinco em LCI, LCA e fundos imobiliários. Gosto de me arriscar, mas com precaução”, conta.

O que o público LGBTQIA+ procura nos investimentos, segundo ela, são condições de segurança e autonomia. Tudo isso passa por educação financeira.

“Os LGBTs precisam de independência financeira para não se expor à agressão física e psicológica em casa ou em qualquer lugar. Eles buscam se informar sobre finanças para lidar melhor com o próprio hábito financeiro. E eles buscam os seus iguais, como eu, por se identificar e por confiar mais”, afirma.

⚠️Enchentes no RS

Durante as enchentes no Rio Grande do Sul, Jéssica conta que não viu nenhuma preocupação das autoridades em separar nos abrigos os gaúchos atingidos conforme as suas vulnerabilidades, em Porto Alegre. Os cuidados, contudo, vieram à tona após os casos de violência sexual contra mulheres nos abrigos. “Vi depois que houve um abrigo voltado às mulheres, aos idosos e deficientes em que também incluíram os LGBTs naquele espaço, com 27 lugares, aproximadamente”, lembra.

Caminhando entre as famílias nos alojamentos, Jéssica diz que a consequência das mudanças climáticas devem ser pensadas em todas as esferas do cotidiano, inclusive sobre as finanças pessoais. Ela vê que o estado, para se reerguer totalmente, precisa pensar além das medidas emergenciais de curto prazo, e sim nas decisões a longo prazo.

“Acredito que o trabalho de reconstrução, além do aparato de infraestrutura, também passa pelo incentivo à educação financeira combinada com o conceito de crise climática. É ensinar os gaúchos a criar uma reserva de emergência, a começar pelo básico, a investir em renda fixa e em seguros. Porque o que eu ouvi nos abrigos era que as pessoas falavam que não adiantava os benefícios do governo, que já perderam tudo”, conta.

A catástrofe climática já deixou mais de dois milhões de gaúchos afetados, mais de 10 mil em abrigos, 806 feridos, 39 desaparecidos e 176 mortos, de acordo com a Defesa Civil do estado.

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