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A regra é clara: conheça o lado investidor do maior e mais conhecido árbitro brasileiro

Em entrevista, Arnaldo Cezar Coelho conta como percorreu uma carreira de sucesso no mercado financeiro paralela a de comentarista e juiz de futebol

Foto de Arnaldo Cesar Coelho

Por Redação B3 Bora Investir

25 anos de árbitro profissional, 29 anos de comentarista de futebol e quase 40 anos no mercado financeiro. Esse é Arnaldo Cezar Coelho (79), o maior e mais conhecido árbitro do país. Pioneiro em Copas do Mundo, foi o primeiro brasileiro a apitar uma final, em 1982, na Espanha. Precursor também como comentarista de arbitragem na televisão ao lado de Galvão Bueno. Ao lado do narrador, se consagrou com os bordões “a regra é clara” e “pode isso Arnaldo”. Muito conhecido pela trajetória no futebol, Arnaldo também fez história no mercado financeiro.

A estreia do ex-árbitro no mundo dos investimentos foi aos 21 anos e por acaso. Depois de comprar o seu primeiro apartamento na planta, semestralmente precisava pagar uma parcela de valor alto à construtora. Para conseguir saldar o imóvel, comprou Letras de Câmbio – investimento indicado pelo irmão, Ronaldo Cezar Coelho, que na época trabalhava como auxiliar de pregão.

De cliente a agente autônomo de investimento, Arnaldo foi trabalhar no Banco Safra. Ao mesmo tempo, atuava com paixão como professor de Educação Física no tradicional colégio Dom Pedro II – no Rio de Janeiro – e apitava jogos de futebol profissional. Seu desempenho no mercado lhe rendeu bons contratos e o levou a novos desafios. Em 1985 criou a sua própria corretora – a Liquidez – onde atuou até 2009 quando vendeu a empresa para o grupo financeiro britânico BGC Partners.

Nesta segunda, 7/11, dia da convocação da seleção brasileira pelo técnico Tite para a Copa do Mundo 2022 no Catar, Arnaldo Cezar Coelho conta a sua trajetória, compartilha histórias inusitadas, dicas para quem está começando a investir e, claro, dá o seu pitaco sobre o que esperar da nossa Seleção nessa entrevista exclusiva para o B3 Bora Investir.

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B3: Como o mundo financeiro entrou na sua vida?

Arnaldo Cezar Coelho: Eu comecei a apitar futebol de praia com 16, 17 anos e ao mesmo tempo estudava para prestar vestibular de economia. Aos poucos comecei a perceber que eu tinha vocação para apitar jogos, então resolvi trocar economia por educação física. Então em 1967 comecei atuando profissionalmente como professor de educação física. E lá nos anos 70, 71, a minha mãe viu que eu tinha um dinheiro a mais do que eu estava precisando e ela me orientou a aplicar esse dinheiro. E, claro, a primeira preocupação da minha mãe era que eu tivesse uma casa própria, porque eu morava em um apartamento alugado.

B3: E aí você comprou o apartamento aos 21 anos e ao mesmo tempo entrou para o mercado financeiro?

Arnaldo Cezar Coelho: Sim. Nessa época eu aprendi que ao comprar um apartamento na planta, além das parcelas mensais, você tem que pagar as intermediárias de seis em seis meses. Só que elas eram muito altas. Então eu tinha que aplicar dinheiro para que eu pudesse pagar essa parcela intermediária. E assim eu comecei a frequentar o Banco Safra, que tinha uma letra de câmbio. Era um título hierárquico que tinha vencimento semestral. Aí eu resgatava e pagava. Nesse meio tempo, fui convidado pelo próprio diretor do Banco Safra para ser agente autônomo de investimento. Nessa época eu já apitava também.

B3: Mas você tinha algum conhecimento nesse mercado?

Arnaldo Cezar Coelho: Não. Eu dizia para ele [diretor do banco Safra] que não entendia nada de mercado. Lembro que tinha uma máquina, FACIT, que você usava para calcular. Eu não entendo bem como eu faria isso. Então ele me disse: ‘você é bom na área comercial. Sabe vender, sabe se aproximar dos clientes. Traz o cliente aqui, ele aplica o dinheiro, a gente faz todas as contas e você ganha comissão’. E assim estreei a minha vida, entre 1970 e 1971, como agente autônomo de investimento vinculado ao Banco Safra. Nesse meio tempo, os clientes queriam aplicar também em renda variável. No Rio de Janeiro, onde eu morava, tinha a corretora Multiplic onde o meu irmão [Ronaldo Cezar Coelho] era operador auxiliar de pregão e depois virou gerente de bolsa. Como eu era agente autônomo, levava os clientes para aplicar lá em renda variável e continuava com renda fixa no Banco Safra.

B3: Como a sua bem-sucedida carreira como árbitro de futebol se cruzou com o mercado financeiro?

Arnaldo Cezar Coelho: A carreira de árbitro e a carreira no mercado financeiro elas se entrelaçam. Eu só comecei no mercado financeiro porque eu comecei a apitar. O futebol progrediu, eu comecei a evoluir, a ter uma receita maior de bola. Na década de 70 eu tinha apitado nos Campeonatos Paulista, Carioca, no Brasil todo. Já era um nome nacional e isso me dava uma facilidade de interação, ajudava na minha atividade de corretor e no aspecto comercial, sem ter nunca sido um técnico. Afinal, eu sei os fundamentos, tenho a intuição toda, a facilidade de trazer o cliente para dentro da instituição financeira.

Ouça aqui um trecho da entrevista:

B3: E como veio a criação da sua própria corretora: a Liquidez?

Arnaldo Cezar Coelho: Ainda na Multiplic, fui convidado a trabalhar em uma área da moda, na época, o Open Market – que era aplicar as reservas das empresas no mercado de títulos públicos. Eu também continuava atendendo pessoa física. Então criei um departamento dentro da corretora de área comercial e os clientes começaram a aparecer. E o mais importante: sempre que eu tinha um papo mais específico, eu levava o técnico. O ‘cara’ queria falar sobre gráfico, levava o grafista. Então assim a coisa foi evoluindo e o futebol foi evoluindo. Até que eu cheguei ao ponto máximo em 1985 quando fui convidado para ser diretor em São Paulo da Multiplic. Como a minha vida estava no Rio, montei a minha própria distribuidora de valores. E tive a sorte de escolher um nome muito comercial, que é um dos fatores de qualquer tipo de aplicação: Liquidez.

B3: E como foi a experiência na Liquidez?

Arnaldo Cezar Coelho: Começamos com oito funcionários até crescermos ao ponto de montar uma filial em São Paulo e comprar um título de corretor e agente de compensação na BM&F [antiga Bolsa de Mercadorias e Futuros, hoje B3]. Então comecei a chamar pessoas que entendiam de bolsa. Eu cheguei ao ponto de fazer 13% do mercado da BM&F. Eu era convidado em todos os bancos para fazer palestras. Eles falavam ‘como é que pode, um professor de educação física ser um corretor e fazer 13% do mercado?’. Eu te digo: é a coisa da credibilidade e ter uma equipe muito boa.

B3: Você chegou até a ser conselheiro da BM&F por 8 anos até o IPO da B3?

Arnaldo Cezar Coelho: Sim. Eu fui convidado pelo Manoel Cintra [presidente das BM&F na época] para fazer parte do Conselho como uma corretora independente. Eu não era ligado a banco, eu não carregava fundo, não tinha posição própria. Eu era um corretor que quando eu visitava o pregão, ele parava. Porque na época já exista o ‘a regra é clara’. Tinha um momento que eu tinha quase 32 pessoas no pregão entre operadores e auxiliares. Em 2009, depois da bolsa abrir capital, aí ficou inviável eu continuar como corretor.

B3: Como foi essa relação de árbitro, depois comentarista da TV Globo a partir de 1989, com a sua consolidação de clientes?

Arnaldo Cezar Coelho: Vou te contar duas histórias. Quando eu apitava, eu ia apitar em Alagoas, Campeonato Alagoano. Eu pegava o voo cedo, chegava lá por volta de 11 horas e já estava marcado com o diretor de uma empresa ou de banco um almoço. E aí eu falava de negócio. Quando chegava três da tarde, eu me recolhia porque a noite tinha jogo. Então eu fazia as duas coisas. Quando eu virei comentarista, eu fazia a mesma coisa. Eu tinha jogo em Porto Alegre. Eu ia cedo, marcava o almoço e chamava até o Galvão para almoçar junto. Levava os clientes. Fazia uma mesa redonda sobre futebol e mercado financeiro, que para o pessoal do esporte é muito bom, porque a gente vai aprendendo a aplicar o seu dinheiro. E chegava de noite, eu tinha jogo como comentarista e nunca deixei de convidar um cliente para ver o jogo. Quando eu apitava, eu levava o cliente para dentro do gramado. Quando eu não apitava, quando era comentarista, eu levava o cliente para dentro da cabine.

Ouça aqui um trecho da entrevista:

B3: E você também era reconhecido?

Arnaldo Cezar Coelho: Sim. Quando eu ia visitar um cliente [nos Estados Unidos], de um grande banco brasileiro, eu era reconhecido pelo segurança e pelo presidente do banco. Então, se eu estivesse representando uma boa empresa, com credibilidade, bons produtos, eu tinha credibilidade, eu tinha um segmento, eu tinha os produtos da bolsa com garantias. Quando eu ia para os Estados Unidos, em um banco na Quinta Avenida, sempre na recepção aparecia um brasileiro.

B3: Como é o Arnaldo Cezar Coelho investidor hoje? E quais as dicas que você daria para quem está começando ou até já opera no mercado?

Arnaldo Cezar Coelho: Hoje estou com quase 80 anos e tive o cuidado de sempre diversificar os meus investimentos. Eu não botei tudo em uma mesma cesta. Diz uma coisa aí que eu te digo que se eu tenho. Dificilmente eu vou dizer que não. Pode ser um valor pequeno, mas eu tenho, porque eu corrijo, eu aprendo.

B3: Dá para fazer uma relação entre futebol e investimento?

Arnaldo Cezar Coelho: Eu sou muito conservador. Tão conservador que eu preferia sempre usar roupa preta. Eu usava uma camisa amarela quando apitava um jogo de um time que tinha a camisa preta. Corinthians estava de camiseta preta, eu usava amarela. A mesma coisa no mercado financeiro. Eu sou um cliente que aprendi desde cedo que eu tenho que aplicar em empresas que me pagam dividendos. Porque os dividendos é que me fazem manter. Eu comparo o mercado financeiro com uma bola de futebol. Ela gira. Em um dia ela está no alto, no outro dia está lá embaixo, mas ela vai girando. É igual a carreira de juiz de futebol: amor e ódio. Quando eu apitava bem, brincavam no avião, o pessoal me dava tapinha nas costas. Quando eu apitava mal, entrava no avião, sentava lá no fundo para ninguém me ver. Passava um passageiro, dava um tapa nas minhas costas e falava: rapaz, o que você fez hoje? Que lambança! Então, essa relação de amor e ódio que eu tinha na arbitragem de time de futebol como juiz, no mercado financeiro é a mesma coisa. A regra é clara, que é um aspecto muito importante, que é disciplina.

Ouça aqui um trecho da entrevista:

B3: Impossível falar com Arnaldo Cezar Coelho e não pedir a sua análise do que esperar da nossa Seleção na Copa do Mundo 2022 que começa em algumas semanas. Qual seria?

Arnaldo Cezar Coelho: Graças ao intercâmbio e graças aos jogadores brasileiros que estão jogando na Europa e são um sucesso, a Seleção brasileira tem uma equipe excelente e por isso são favoritos. É a melhor Seleção que o Tite podia montar, mas tem que competir, não pode querer se exibir.

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