Organizar as contas

Casais têm dificuldade para falar sobre ambições financeiras. Isso gera disputa, diz Cerbasi

Ao Bora Investir, autor do best seller "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" aponta como evitar conflitos sobre dinheiro nos relacionamentos

Gustavo Cerbasi;. Foto: Divulgação
Gustavo Cerbasi; casal não pode se esquecer da base da parceria, alerta o consultor. Foto: Divulgação

Por Marília Almeida

O assunto finanças entre casais geralmente aparece de forma tardia, não ideal e conflituosa, supondo um acordo que não é claro. É assim que Gustavo Cerbasi, autor do best seller “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” resume o cerne dos problemas nos relacionamentos relacionados a dinheiro.

O livro foi publicado há quase 20 anos e muita coisa na sociedade mudou desde então, especialmente o papel da mulher. Contudo, a falta de educação financeira permanece: afinal, o assunto só chegou às escolas a partir de 2020. O resultado? Conflitos. “O casal tem dificuldade de falar sobre sonhos e ambições. Por conta disso, neste período de transição de papéis, há disputa”, diz Cerbasi.

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Mestre em Finanças pela Universidade de São Paulo e graduado em Administração Pública (FGV-SP), Gustavo Cerbasi é consultor, professor, palestrante e autor de 16 livros com mais de 3 milhões de exemplares vendidos. Também é sócio da SuperRico, plataforma que une planejadores profissionais aos usuários do serviço.

Ao Bora Investir, ele aponta o caminho para que o casal tenha uma maior harmonia financeira e evite dores de cabeça financeiras. Acompanhe!

“Conversa sobre dinheiro acontece muito tarde”

Segundo o consultor financeiro, a conversa sobre dinheiro entre um casal acontece de forma tardia. “Na correria moderna existem outros assuntos prioritários, e o dinheiro vai ficando pra depois. Quando surge o assunto, ele é quadrado, na forma de uma pergunta sobre o quanto o outro gastou”.

O que pode parecer algo simples é, na verdade, carregado de desconfiança, explica Cerbasi. “A pergunta questiona a capacidade do outro de fazer escolhas e dá espaço para o parceiro questionar o nosso comportamento também. Isso porque o alinhamento sobre o assunto não está claro”.

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A recomendação é de que o tema não seja trazido à tona apenas como forma de confrontar habilidades. Mas, sim, de uma forma mais leve e prazerosa, ensina. “O casal deve refletir sobre o que podem fazer para conseguir ter mais coisas na vida, como ter mais happy hours ou uma casa maior. A pergunta deve ser: você consegue contribuir com quanto para isso? Vamos fazer hora extra, vender algo? O que seria mais eficaz para construir nossos sonhos?”.

Se não há uma conversa clara sobre o papel de cada um nas finanças do casal, a tendência é que sejam criados pequenos elementos de infidelidade financeira. “São gastos maiores do que o combinado e empréstimos escondidos”, exemplifica Cerbasi. Caso o erro se torne recorrente, ou fique maior, pode se tornar uma traição financeira. “Como se resolve isso? Abrindo caminho para falar sobre o assunto”.

Como lidar com as diferenças financeiras

Cerbasi aponta que o papel dos homens e das mulheres no orçamento familiar vem evoluindo e se tornando mais igualitário com relação à divisão das contas da casa. Contudo, há uma mudança significativa no formato de trabalho que pode fazer com que um casal alterne papéis de maior provedor do orçamento familiar de duas a cinco vezes ao longo da vida.

“A tendência é que o trabalho se torne mais cíclico. Ou seja, um parceiro pode estar no papel de suporte atualmente, mas isso pode mudar no futuro”, explica o consultor. “Em um momento ambos podem estar ganhando bem. Mais para frente, alguém deixará de ganhar e passará a ser suporte para mais um passo na carreira do outro”.

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E como driblar o conflito que pode surgir de que um parceiro está supostamente acomodado e o outro contribui mais para as contas da casa? Lembrando o que, de fato, é a base da parceria, diz Cerbasi. “É necessário abordar planos em conjunto. Se o casal apenas formou uma parceria para dividir contas, vai ter dificuldades”.

Ele recomenda que ao invés de olhar que um ganha R$ 5 mil e o outro R$ 2 mil, a visão precisaria ser: o que conseguimos fazer de melhor com esses R$ 7? “Ter um orçamento conjunto diminui a probabilidade de problemas. Se o orçamento é individualizado, essa relação não é um casamento ainda”.

Começo da vida a dois com dívidas pode ser desastroso

Um casal que já não fala sobre dinheiro comete um grande erro ao começar a vida a dois endividado, critica Cerbasi. “A primeira coisa que fazem é sentar em um banco e financiar uma casa. Aí começam os erros. Será que um casal jovem que está na fase de viajar mais não poderia adquirir uma casa mais simples?”.

Nesse caso, um momento que deveria ser mais leve começa com quase a totalidade do salário direcionado para pagar contas básicas, exemplifica. “Tentando desenhar o que seria a vida adulta e mostrar que são agora uma família, tudo o que o casal faz é consumir itens burocráticos”.

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Por fim, o consultor provoca apontando que muitos casais optam por ter uma vida mais minimalista apenas quando vão viver fora do país. “Lá fazem sacrifícios que não estão dispostos a fazer no Brasil: são criativos, vão viver no sótão, compartilhar moradia com outros casais. No Brasil, sucumbem às pressões sociais. Mas não deveriam prestar contas à sociedade, e, sim, ao seu planejamento financeiro”.

Tecnologia pode ajudar na organização

Um casal precisa ter uma conta conjunta? Não, diz Cerbasi: o mais importante é que o planejamento seja feito em conjunto e grandes decisões financeiras sejam tomadas a dois.

Um mundo mais digital facilita a transparência das contas familiares, lembra. “Ninguém precisa ficar questionando o outro: basta baixar um app e incluir duas ou três contas que serão monitoradas”.

Duas cabeças pensam melhor que uma, pontua. “Pode ter alguém que lidere as conversas sobre o orçamento, mas é saudável sempre conversar com o parceiro sobre oportunidades que podem surgir”.

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