Por que a geração Z está deixando a aposentadoria para depois? Entenda o impacto dessa decisão
Estudos mostram que a ‘gen Z’ possui maior controle dos gastos em comparação às gerações passadas, mas ainda tende a adiar o planejamento da aposentadoria
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
A geração Z, cuja definição mais utilizada abrange os nascidos entre 1997 e meados de 2010, apresenta uma maior disciplina financeira em relação às gerações antecessoras, mas ainda enfrenta desafios para construir uma reserva para a aposentadoria.
Isso é o que revela a mais recente edição do Raio X do Investidor Brasileiro, um estudo feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha. Segundo a amostra, apenas 12% dos gen Z começaram a poupar para a aposentadoria, enquanto 66% afirmam que pretendem iniciar esse planejamento no futuro.
Outra análise, divulgada pelo Serasa, por meio da edição de maio do Mapa da Inadimplência, mostra que a geração Z apresenta menor índice de inadimplência em comparação aos seus pares mais velhos. A faixa etária que vai dos 18 aos 25 anos representa 11% dos inadimplentes no país, ante 33,3% no grupo entre 26 e 40; 35,7% na faixa entre 41 e 60; e 20% nos acima de 60.
Porém, mesmo com menor taxa de inadimplência e maior controle de gastos, a Gen Z ainda enxerga a aposentadoria como um planejamento distante, a longo prazo, e que, em teoria, pode esperar, em comparação com outras metas e necessidades financeiras mais imediatas.
“Existe uma questão de ciclo de vida. A maior parte das pessoas, quando são jovens ou no início da carreira, têm prioridades mais imediatas, como concluir os estudos, conquistar independência financeira, ou construir uma carreira profissional. Nesse contexto, a aposentadoria é percebida como um objetivo muito distante”, avalia Rogério Nagamine Costanzi, doutor em economia e ex-subsecretário e ex-diretor do Regime Geral de Previdência Social,
Mudanças que englobam as prioridades da geração, que tende a priorizar experiências e aspectos ligados à saúde mental e qualidade de vida, somadas à instabilidade profissional e aos baixos salários, típicos de início de carreira, são variáveis que podem também levar ao adiamento dos planos de previdência por parte dos mais jovens.
“Um certo imediatismo, acentuado em função da característica da sociedade moderna, somada a uma dificuldade de imaginar o longo prazo e uma situação objetiva de salários menores no começo de carreira”, destaca o economista e especialista em finanças públicas e previdência social, Fábio Giambiagi.
Esse conjunto de circunstâncias leva ao adiamento do planejamento da própria aposentadoria por parte dos jovens. A opção de deixar para o futuro, porém, pode resultar em problemas no planejamento das finanças a longo prazo.
“Se você começa a contribuir aos 20, você contribui por 45 anos, levando em conta a idade de aposentadoria (65 anos para homens e 62 para mulheres). Agora, se você espera para começar aos 30, esse valor de contribuição sobe consideravelmente”, diz Giambiagi, ao mencionar a possibilidade dos ganhos com os juros ao longo do tempo, conforme dados calculados na plataforma LongevPrev.
“A demora custa, e se esperar até os 40, mais ainda”, acrescenta o economista.
O fantasma da ‘crise da Previdência’
O tema da aposentadoria ainda é, em larga escala, associado diretamente com o sistema de Previdência Social amparado pela União e gerido pelo Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS. Contudo, as condições impostas pela Reforma da Previdência de 2019 e a própria ideia de um colapso iminente do sistema previdenciário brasileiro no futuro levam uma parte dos jovens à descrença quanto à possibilidade de aposentadoria.
“A Reforma da Previdência de 2019 elevou a idade mínima para aposentadoria, aumentou o tempo de contribuição em diversas regras e alterou a forma de cálculo dos benefícios, o que, na prática, pode resultar em aposentadorias menores para quem não se planeja. Isso torna o planejamento previdenciário ainda mais importante, especialmente para os jovens”, avalia João Badari, advogado Previdenciário do Instituto de Estudos Previdenciários – IEPREV.
Segundo Badari, é importante que os mais jovens tenham um planejamento antecipado, o que engloba a contribuição à Previdência Social e também um complemento por meio de investimentos e previdência privada, levando em consideração as condições financeiras de cada um.
Nesse contexto, a questão do planejamento ganha um contorno especial no caso dos que trabalham na informalidade ou na condição de Microempreendedor individual (MEI), e que estão desprotegidos em casos de acidente e/ou incapacidade de trabalhar.
De um modo geral, os especialistas afirmam que a curva de envelhecimento na população brasileira pressiona a Previdência Social e, por conta disso, algumas mudanças pontuais podem ocorrer nos próximos anos, mas nada que sugira uma “quebra” do sistema.
“É razoável imaginar que novos ajustes sejam discutidos nos próximos anos. Isso não significa, necessariamente, uma reforma ampla como a de 2019, mas mudanças pontuais tendem a fazer parte do debate. Justamente por essa incerteza, começar a planejar a aposentadoria cedo se torna ainda mais importante”, afirma Badari.
“É equivocado pensar que o Estado não pagará os aposentados no futuro. Essa possibilidade não existe, porque, do contrário, o governo cai. Isto, porém, é diferente de afirmar que as condições serão como hoje. O que pode acontecer, como aconteceu em outros países que enfrentaram situações críticas, como Grécia e Argentina, é uma redução dos benefícios”, cita o economista Fábio Giambiagi.
Como investir para a aposentadoria?
Para os especialistas ouvidos pelo Bora Investir, as principais recomendações para o jovem da geração Z que deseja poupar para a velhice incluem um planejamento antecipado e uma diversificação dos investimentos, de modo a combinar o amparo social do sistema previdenciário brasileiro a possibilidades de maior rentabilidade no longo prazo em ativos privados.
“Sempre que possível, o ideal é combinar a proteção oferecida pela Previdência Social com uma reserva financeira ou uma previdência complementar. Assim, o trabalhador reduz sua dependência de futuras mudanças legislativas e ganha mais segurança financeira”, pontua o advogado João Badari.
Uma possibilidade ofertada pelo Tesouro Direto são as modalidades Tesouro Reserva e o Tesouro RendA+, focado na construção de uma renda mensal para aposentadoria. Os dois, porém, possuem objetivos diametralmente distintos, e devem ser acionados de acordo com o desejo de cada investidor.
O Tesouro Reserva rende 100% da taxa Selic, mas sua aplicação é mais coerente para situações de curto prazo e para a criação de uma reserva de emergência, o que pode funcionar melhor para trabalhadores autônomos e informais, que podem se beneficiar da liquidez e, eventualmente, precisar dos rendimentos para situações pontuais.
Já o RendA+ é apropriado para os que buscam construir uma renda de aposentadoria complementar aos pagamentos feitos pelo INSS. Essa modalidade gera um retorno real acima da inflação, além de ser um planejamento de longo prazo que pode ser iniciado mesmo com baixos aportes mensais. Nessa opção, o investidor realiza aportes durante a chamada “fase de acumulação”, e, após a conclusão dessa etapa, recebe o pagamento dividido em 240 parcelas (20 anos). Os aportes mensais, o período selecionado e o rendimento dos títulos podem ser conferidos na calculadora do RendA+, disponível no site do Tesouro Direto.
“Dado que se espera que a generosidade dos benefícios dos regimes obrigatórios diminua com o tempo, a importância da previdência complementar e de outros investimentos de longo prazo passam a ser cada vez mais essenciais”, menciona Rogério Nagamine Costanzi.
Tendo em vista a incerteza sobre quando haverá a perda da capacidade laboral, o ideal é que o planejamento seja feito, se possível, desde o início da carreira profissional. Preocupar-se com investimentos ou aposentadoria, mirando um bom padrão de vida, apenas quando a idade chega é receita certa para a insegurança financeira no futuro ou no longo prazo”, completa.