CDBs de varejistas: o que avaliar na hora de investir
Magalu, Pernambucanas e Riachuelo estão entre as varejistas que entraram no mercado de crédito privado com CDBs que pagam acima de 100% do CDI
O mercado de renda fixa ganhou, recentemente, mais um produto de investimento entre as opções de crédito privado. No fim de março, o Magazine Luiza lançou o seu primeiro Certificado de Depósito Bancário (CDB) do MagaluPay no mercado. O novo produto se junta aos CDBs oferecidos por outras gigantes do varejo, como Pernambucanas e Riachuelo, com rentabilidade acima de 100% do CDI.
A entrada das varejistas no mercado de crédito privado reflete uma evolução natural do setor. Se, antes, as varejistas se movimentaram para monetizar a base de clientes por meio de cartões próprios e a oferta de operações de crédito, agora, elas diversificar as fontes de captação, avalia Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Do ponto de vista corporativo, a medida reduz a dependência exclusiva do mercado de crédito tradicional e dos grandes bancos, além de fortalecer o engajamento do cliente com a marca dentro do ecossistema digital.
Mas, o que avaliar na hora de decidir por um ou outro CDB?
Rentabilidade acima de 100% do CDI
Para atrair a atenção dos investidores, os CDBs emitidos por financeiras ligadas ao setor varejista tendem a oferecer taxas superiores às dos grandes bancos. Essa remuneração mais alta funciona justamente para compensar a percepção de um maior risco de crédito por parte do emissor e os prazos de vencimento, que geralmente são mais longos.
Enquanto os bancos tradicionais costumam remunerar CDBs de liquidez diária ou de curto prazo entre 90% e 100% do CDI, as opções das varejistas apresentam rentabilidades mais agressivas, explica Douglas Rodrigues, planejador financeiro CFP, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.
O CDB do MagaluPay, por exemplo, oferece entre 102,5% e 104,5% do CDI, dependendo do prazo escolhido pelo investidor, que pode variar entre seis meses e dois anos. Essa taxa é compatível com o que vem sendo oferecido por bancos digitais concorrentes no mercado, pontua Perri.
Já a Pernambucanas trabalha com CDBs mais longos pagando em torno de 110% do CDI, enquanto a financeira da Riachuelo tem ofertas mais conservadoras, próximas a 102% do CDI, porém com prazos mais estendidos, segundo Rodrigues.
O que avaliar na hora de investir
Antes de destinar recursos a esses papéis, a recomendação dos especialistas é fazer a lição de casa, começando pelo que Rodrigues chama de “básico bem-feito”. A avaliação da saúde financeira deve começar por entender quem é o emissor, analisando dados como o nível de alavancagem, o histórico de resultados e a capacidade da empresa de gerar caixa em diferentes ciclos da economia.
Perri sugere observar também relatórios de análises independentes, notas de rating e métricas regulatórias, como o Índice de Basileia, que indica se a instituição tem capital para cobrir os riscos de crédito, e o Índice de Imobilização, que mostra o quanto de capital está atrelado a ativos fixos, comprometendo a liquidez.
Além disso, é importante investigar a finalidade da captação de recursos. Se os fundos forem usados de forma recorrente para cobrir desequilíbrios operacionais e pressões de curto prazo, o risco da operação se torna maior do que se fossem usados para o crescimento estrutural da companhia.
Casos recentes no mercado de crédito privado, como o da Americanas e do Banco Master, evidenciam que, mesmo munido de informações públicas e validações formais como os ratings de crédito, o investidor pessoa física raramente consegue capturar a integralidade da realidade financeira de uma empresa. Perri destaca que os riscos são inerentes a qualquer investimento e que é essencial acompanhar as notícias sobre a instituição e contar com a proteção adicional trazida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Como investir nos CDBs das varejistas
No planejamento financeiro, esses CDBs exigem cautela e alinhamento de expectativas. Ambos os especialistas são categóricos ao afirmar que esses papéis não são indicados para a reserva de emergência. Isso porque a reserva exige liquidez imediata e máxima previsibilidade, qualidades que não combinam com o risco de crédito maior e os prazos travados dos títulos de varejistas.
Perri recomenda essas aplicações para investidores com perfil conservador a moderado, desde que os recursos sejam destinados ao médio prazo, idealmente com vencimento superior a dois anos.
Para Rodrigues, esses ativos servem como uma ferramenta para o investidor moderado que já possui a parte essencial da carteira bem estruturada e busca diversificação tática para otimizar o retorno, assumindo um risco adicional de forma controlada.
Para investir nesses produtos, o acesso é simples e pode ser feito tanto diretamente pelas plataformas digitais das próprias varejistas quanto por meio de corretoras e bancos de investimentos.
Simulações na prática
Para conhecer melhor o peso do risco e do retorno, os especialistas fizeram projeções com um investimento hipotético de R$ 10 mil.
Considerando um cenário com o CDI a 13,00% ao ano, Perri calcula que uma aplicação de R$ 10 mil em um CDB rendendo 104,5% do CDI pelo prazo de dois anos entregaria um retorno bruto de 29,0%. Após o desconto de 15% do Imposto de Renda sobre o lucro, o investidor teria um ganho líquido de 24,6% no período.
Em outra simulação feita por Rodrigues, com o CDI projetado em torno de 14,75% ao ano, um CDB pagando 105% do indicador por 12 meses, o resultado seria um ganho líquido aproximado de R$ 1,3 mil.
Se o investidor optasse por alongar o prazo para 24 meses buscando uma taxa de 110% do CDI, o ganho líquido poderia se aproximar de R$ 3 mil ao fim do período.
Apesar da atratividade dos números, a regra de ouro permanece sendo a cautela. Rodrigues alerta que, como regra prática, um prêmio acima da média só faz sentido se acompanhado de um prazo mais curto e proteção do FGC. Isso porque o retorno adicional existe, mas não cresce na mesma proporção que o risco e o tempo de exposição ao emissor.
“Acredito que a diferença de taxa existe e é relevante, mas ela precisa ser analisada dentro de um contexto mais amplo que inclui prazo, liquidez, risco de crédito e objetivo do cliente. No planejamento financeiro, a taxa isolada é apenas um dos componentes da decisão e não o principal”, avalia Rodrigues.