Renda fixa

Novas emissões e maior diversidade de setores: as perspectivas para o mercado de crédito em 2024

Gestores da JGP, Absolute Investimentos, Icatu Vanguarda e SulAmérica comentam expectativas

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Os ativos chamados de créditos privados nada mais são do que títulos de dívidas emitidos por empresas e instituições não-públicas. Foto: Adobe Stock

Por Daniela Frabasile

2023 foi emblemático para o crédito privado no Brasil. Já em janeiro, o caso Americanas chacoalhou o mercado. Se em dezembro de 2022, as empresas que se financiavam no mercado de capitais via debêntures pagavam, em média, taxas de CDI + 1,9%, depois do ocorrido na varejista, esse valor chegou a CDI + 3,10%. “Uma abertura importante”, comenta Alexandre Muller, da JGP.

O que se seguiu foram meses em que o mercado esteve fechado para novas emissões. Traduzindo o jargão, isso significa que as empresas sequer colocavam no mercado novos papéis de renda fixa, dada a dificuldade de encontrar compradores nas taxas que as companhias estavam dispostas a pagar.

O capital para crédito privado rareou, os fundos que seguem essa estratégia viram os saques superarem os novos aportes em R$ 42,9 bilhões de janeiro até outubro.

Com o passar dos meses, no entanto, os spreads foram se normalizando. Segundo o índice da JGP, voltaram ao patamar de CDI + 2,2%.

Nesta quinta-feira (30/11), renomados gestores de fundos de crédito se reuniram em uma live promovida pela Icatu para discutir o cenário e as perspectivas para 2024.

Depois da seca, retomada é esperada para 2024

Para ilustrar a escassez de novas emissões ao longo dos últimos meses, Antonio Correa, da Icatu Vanguarda, contou que em 2022 a gestora participou de cerca de100 emissões primárias. Este ano, a conta ficou em torno de 20. “Havia muita incerteza [depois do caso da Americanas], tanto do lado dos credores quanto dos investidores”, diz. As emissões de empresas AAA, as mais bem-avaliados pelas agências de classificação de risco, chegaram a um spread de CDI + 3%, segundo ele.

Enquanto isso, os emissores que não eram AAA não estavam dispostos sequer a pagar esse valor, quanto mais os prêmios exigidos pelos investidores. “O mercado entrou em um equilíbrio em que não tinha negócio”, afirma.

Para 2024, a perspectiva é de retomada de novas emissões. Stefan Castro, da Absolute Investimentos, se diz otimista com o próximo ano. Além da retomada de emissões primárias, ele acredita em uma melhora da qualidade dos papéis. “Comparando com os últimos 12 a 18 meses, o spread está muito interessante, ponderando pela qualidade. As empresas tiveram de fazer a lição de casa por causa do período de juro alto e restrição ao mercado de capitais. Acredito que vamos ter uma qualidade de carteira de crédito melhor e mais oportunidade para girar a carteira”, diz.

Em evento realizado na semana passada, Daniela Gamboa, Head de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos, compartilhou uma avaliação similar. Segundo ela isso vale tanto para debêntures tradicionais quanto para as incentivadas, CRIs e CRAs. “Os papéis incentivados estão voltando com força e devem ter um bom momento em 2024”, afirmou.

Outro ponto positivo, comenta, é a estabilidade do mercado externo. “A janela para emissores brasileiros acessarem o mercado lá fora está melhor. É mais um mercado que não estava tão favorável esse ano, mas em 2024 há mais chances de empresas brasileiras acessarem o mercado externo”, diz. Com as empresas mais bem-avaliadas colocando papéis no mercado externo, abre-se o espaço para que as demais empresas encontrem investidores domésticos.

Nova onda de refinanciamento é importante para o mercado

Muller lembra que essa nova onda de emissões é importante até para a saúde financeira das próprias empresas. “No crédito privado, o mercado afeta os fundamentos. É preciso ter um mercado funcional para não ter estresse de crédito, porque é preciso ter oportunidades de financiamento e refinanciamento para as empresas”, diz. Em 2023, a escassez de novas ofertas afetou a capacidade de refinanciamento.

“O grande fator de melhora foi a reabertura do mercado de crédito. O mercado doméstico readquiriu uma funcionalidade, com o restabelecimento do mercado primário”, que trouxe de volta a capacidade de as empresas rolarem suas dívidas, afirma.

Muller nota, entretanto, que a JGP tem estado atenta à disciplina de estrutura de capital das empresas nas novas emissões.

Evolução do mercado de crédito privado

Durante o evento, os gestores foram unânimes em afirmar que o mercado de crédito brasileiro mudou ao longo dos últimos anos. Em 2019, quando a JGP iniciou seu índice de crédito, usava como base cerca de 30 debêntures. Hoje, são mais de 320. Para Muller, isso mostra que o mercado de capitais se fortaleceu e se firmou como provedor de crédito mais amplo.

O resultado disso, entretanto, é uma maior complexidade para o setor. Antonio Correa, da Icatu Vanguarda, lembra que poucos anos atrás, os emissores recorrentes de títulos de crédito privado eram empresas e setores com fluxo de caixa mais previsível. Mais recentemente, o escopo se abriu a setores mais cíclicos.

“É natural que o mercado mais profundo tenha casos de crédito”, afirma, se referindo aos problemas envolvendo empresas como Americanas e Light.  “A gestão de risco passa a ser mais palpável, você consegue ver como está sendo feito o controle e como gestores estão usando o potencial”, diz.

Esse maior desafio é acompanhado também por mais oportunidades no mercado secundário, que ganhou liquidez com a entrada de mais gestoras.

Além da entrada de novos emissores no mercado, o perfil dos títulos também se alargou. Tanto que hoje são mais comuns os papéis de vencimento mais longo, diz Stefan Castro, da Absolute Investimentos. “Dez anos atrás, falar em operação com prazo de cinco anos era quase um palavrão. Com o desenvolvimento do mercado, hoje é mais comum vermos emissões de sete a dez anos”, afirma.

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