Renda fixa

O Brasil é mesmo o país do CDI? Leia o artigo de Bruna Marcelino

Reflexões sobre como as decisões do COPOM sobre os juros afetam a bolsa de valores do Brasil e os investimentos de todos

Gráfico e caneta representando balanço. Foto: Marcello Casal/Agência Brasil
Gráfico: nunca foi tão necessário analisar a porção de renda fixa da carteira. Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Com Bruna Marcelino

Bruna Marcelino, Formada em Economia, é conselheira da ONG “Ação Jovem – Educação e Finanças”, tem as certificações CEA e CFP® e fala sobre investimentos no seu Instagram.

A cada 45 dias o banco central brasileiro se reúne para discutir a trajetória da Selic, a taxa básica de juros. A reunião começa em uma terça-feira e o COPOM, Comitê de Política Monetária, informa a decisão no dia seguinte. Já ouviu falar da “Super Quarta”? Esse termo é conhecido no mercado financeiro como o dia em que temos divulgação dos juros tanto pelo banco central no Brasil quanto nos EUA.

Na última reunião em março, o COPOM decidiu manter a taxa SELIC em 13,75% e no comunicado não houve sinalização de queda dos juros para a próxima reunião. Como isso afeta a bolsa de valores? O valuation (precificação das empresas) usado na análise fundamentalista é feito pelo fluxo de caixa descontado, ou seja, quanto maior o juro, menor será o valor presente. Por isso uma sinalização da queda da taxa de juros poderia impulsionar a renda variável. Com a Selic no patamar que está, a renda fixa se mantém bastante atrativa ao investidor.

Segundo relatório da B3, o número de investidores pessoa física teve um crescimento de 34% em Renda Fixa, evoluindo de 11,1 milhões de CPFs no 4TR21 para 14,8 milhões no 4TR22. Já na Renda Variável o crescimento foi de 19% no mesmo período e o número de CPFs ultrapassou a marca de 5 milhões. E sabia que mais de 530 mil investidores aplicam em ETFs? Os Exchange Traded Funds são fundos de índices negociados em bolsa. Dessa forma, através de uma única aplicação é possível ter uma carteira diversificada com ações de setores diferentes como os ETFs que replicam o IBOV. Também tem ETFs setoriais, ETFs de renda fixa e até cesta de criptomoedas. No 4TR22 o valor em custódia de ETFs foi de R$8 bi, ultrapassando o saldo de R$5,6 bi dos BDRs. 

Os Brazilian Deposity Receipts são recibos de empresas negociadas no exterior. Ou seja, os investimentos em BDRs tem dois efeitos: o impacto da variação da ação no exterior e o câmbio. Então, é uma forma de se expor as empresas estrangeiras aplicando diretamente pelo seu home broker. 

+BDRs: mitos e verdades sobre esse tipo de investimento

Assim como o IBOV é considerado termômetro do mercado de ações brasileiro, o S&P 500 representa as 500 maiores empresas negociadas nos EUA. E o ano passado foi difícil para o S&P 500 por conta da alta da taxa de juros americana. Na última “Super Quarta”, o FED subiu a taxa básica de juros entre 4,75% e 5% a.a. A título de comparação, em janeiro do ano passado essa taxa estava no patamar de 0,25%. Sair de juro quase zero nos EUA para o patamar atual fez com que as ações principalmente de empresas de tecnologia tivessem uma queda expressiva no ano passado. Por isso que, nos EUA, o Nasdaq (índice de ações de tecnologia) foi o índice que mais caiu em 2022 quando comparado aos índices Dow Jones e S&P 500. Por conta do movimento de alta dos juros, alguns investidores se questionaram se poderiam aplicar em títulos pós fixados do Tesouro Americano. Mas a maior liquidez e popularidade são os títulos pré-fixados (Treasury Bills, Treasury Notes e Treasury Bonds). Por outro lado, os pré-fixados vão se beneficiar quando houver o movimento de queda dos juros.

Nesse momento, quem está bem acostumado com títulos pós-fixados é o Brasil. Então, será que somos o país do CDI? De acordo com balanço do Tesouro Direto as vendas de títulos públicos atingiram a marca de R$ 4,3 bi em janeiro de 2023 e a negociação dos títulos Tesouro Selic representaram 64,1%; enquanto os títulos indexados à inflação tiveram participação de 22,4% e os pré-fixados 13,5%. Já ao analisarmos o estoque de títulos públicos, o Tesouro Direto alcançou o saldo de R$ 105,7 bi e o cenário muda. A maior participação nesse estoque são 51,9% dos títulos indexados à inflação; seguidos de 34,9% do Tesouro Selic e 13,1% dos pré-fixados. Isso mostra o quanto os títulos públicos são um ótimo instrumento de proteção contra a inflação. E na atual conjuntura, podemos dizer que somos o país do juro real e diga-se de passagem, do maior juro real do mundo.

*as opiniões do colunista não refletem necessariamente a opinião do B3 Bora Investir

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