Títulos públicos atrelados à inflação lideram rendimentos no 3º trimestre; confira retornos da renda fixa
Queda nos juros futuros inverteu fluxo na renda fixa, mas na visão de agentes de mercado ainda é cedo para decretar tendência
O ranking de aplicações de renda fixa mudou de rumo no terceiro trimestre de 2026. Os títulos públicos atrelados ao IPCA, medidos pelo IMA-B Total, renderam 5,79% no período e 3,15% só em setembro, liderando ganhos, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria. Já os prefixados, representados pelo IRF-M Total, avançaram 4,03% de julho a setembro, enquanto os pós-fixados, medidos pelo IMA-S, entregaram 3,43% no terceiro trimestre, a mesma rentabilidade que o CDI (principal indexador da renda fixa).
A poupança ficou bem atrás com apenas 2% de rentabilidade no trimestre. Veja abaixo:
Mas no acumulado de 2026, o fluxo vai na contramão. Impulsionados por uma Selic ainda elevada, os pós-fixados lideram em retorno. O índice IMA-S (que acompanha os títulos públicos ligados à Selic) tem ganhos de 10,62%, seguido do IMA-B com alta de 10,11% e 9,29% dos prefixados (IRF-M Total). O CDI apresenta ganhos de 10,51% no ano e a poupança de 6,15%.
| Aplicação | 3º trimestre | Setembro | Acumulado em 2026 |
| IMA-B Total (atrelados ao IPCA) | 5,79% | 3,15% | 10,11% |
| IRF-M Total (prefixados) | 4,03% | 2,09% | 9,29% |
| IMA-S (pós-fixados) | 3,43% | 1,06% | 10,62% |
| CDI | 3,43% | 1,08% | 10,51% |
| Poupança | 2,00% | 0,65% | 6,15% |
| Debêntures (índices IDA) * | |||
| IDA DI (debêntures atreladas ao CDI) | 3,53% | 0,96% | 10,87% |
| IDA Geral (debêntures DI e IPCA) | 3,36% | 0,92% | 7,91% |
| IDA IPCA (debêntures atreladas ao IPCA) | 3,17% | 0,85% | 4,76% |
IDA é o Índice de Debêntures ANBIMA, que acompanha carteiras de debêntures, títulos de dívida emitidos por empresas. DI e IPCA indicam o indexador das debêntures; o IDA Geral reúne os dois segmentos.
O que explica a virada
Os especialistas consultados pelo Bora Investir acreditam que o principal fator deste movimento, que levou prefixados e títulos atrelados ao IPCA a superarem os pós-fixados no último trimestre, foi o fechamento da curva de juros futuros. Segundo Rafael Dadoorian, head de renda fixa da Convexa Investimentos, isso favoreceu a valorização dos títulos prefixados e atrelados à inflação por meio da marcação a mercado.
Segundo Ricardo Leite, head de alocação da Barsi Investimentos, muitas vezes os investidores esquecem que os títulos são de renda fixa, mas os preços deles não, portanto o preço destes ativos fica mais ligado às expectativas de juros futuros, que mudam conforme o mercado ajusta suas projeções, do que propriamente o rumo da Selic atual.
“Quando essas taxas futuras caem, os títulos que já estão na carteira tendem a se valorizar e foi justamente isso que vimos acontecer”, aponta Leite.
Gabriel Castro, analista de investimentos do Grupo Mide, lembra ainda que a dinâmica muda para cada classe. Enquanto o pós-fixado acompanha a taxa do dia, os prefixados e indexados ao IPCA são marcados a mercado, desta forma com taxas em queda, o investidor recebe o carrego do título e ainda a valorização do preço.
“Quem estava no pós-fixado recebeu exatamente o que contratou, neste caso, a Selic. Não errou nada, só não tinha como ganhar nada além disso”, afirma Castro.
Ainda segundo os especialistas, após cinco cortes consecutivos da taxa básica de juros, no primeiro semestre o retorno da renda fixa veio do carrego dos ativos, enquanto no terceiro trimestre, foi nitidamente fruto da marcação.
É uma nova tendência?
Com os prefixados e indexados ao IPCA ganhando destaque, a grande dúvida do investidor é se estamos diante de um movimento pontual ou uma nova tendência de fluxo na renda fixa. Os especialistas se dividem em relação a este cenário.
Para Victor Deischl, sócio e gestor da Rubik Capital, tudo indica se tratar de uma tendência, mas que deve ser observada com certas ressalvas. Ele destaca que boa parte do ganho veio da redução do prêmio de risco eleitoral, contudo, na visão de Deischl é um movimento que não se repete na mesma escala. “Se o segundo turno nas eleições frustrar, as taxas reabrem e parte do ganho é devolvida”, aponta.
Já Castro, do Mide, acredita em uma recuperação gradual de ativos que estavam descontados, no caso dos prefixados e atrelados ao IPCA. Segundo ele, os títulos longos passaram boa parte de 2026 perdendo rentabilidade e só recuperaram parte do prejuízo no terceiro trimestre. “Chamar isso de nova tendência três meses depois de um ano de prejuízo é confundir o repique com a virada”, destaca.
Na visão de Dadoorian, da Convexa Investimentos, ainda é prematuro falar de uma nova tendência diante do fiscal desafiador e da inflação, com o IPCA de 0,83% em setembro e 4,58% em 12 meses.
Enquanto na Barsi Investimentos, a crença é que cravar uma tendência é arriscado, porque não foi definido o novo presidente do Brasil e nem as pessoas responsáveis pela equipe econômica. “O mercado em algum momento vai cobrar essa conta”, pontua Leite.
Quando manter e quando vender um título?
Para os investidores que optaram por focar a carteira em títulos pós-fixados, por conta dos juros elevados, a dúvida é se ainda vale manter destaque para esta classe de ativos, diante da queda da Selic projetada para os próximos meses. Na visão dos especialistas consultados pela reportagem, os pós-fixados não decepcionaram, apenas tiveram mudança no seu custo de oportunidade frente às demais classes de ativos.
Dadoorian lembra que muitos investidores estão posicionados em CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), LCI (Letras de Crédito Imobiliário) e LCA (Letras de Crédito do Agronegócio) que pagam acima do CDI e nem sempre permitem uma saída antecipada. A sugestão do especialista é direcionar a liquidez excedente ou os próximos vencimentos da carteira para novos indexadores.
Deischl defende migrar gradualmente a parcela de longo prazo para prefixados e IPCA+, mantendo a reserva de emergência no pós-fixado.
Questionados sobre qual classe de ativo será a campeã de renda fixa em 2026, os especialistas apostam nos títulos atrelados ao IPCA+, mas alertam que tudo dependerá da continuidade de fechamento da curva de juros.
Travou 14% no prefixado ou IPCA+8%?
Durante períodos de incerteza e forte volatilidade, alguns investidores conseguiram garantir taxas históricas nunca antes vistas. Entre estas títulos prefixados oferecendo taxas de 14% ou mais ou ativos indexados ao IPCA com prêmio superior a 8%. Atualmente, é possível encontrar na prateleira taxas prefixadas de até 12,80% ou IPCA +6,76%. Diante disso, outra dúvida comum é se vale a pena manter estes títulos ou vender e usufruir dos ganhos.
Para os especialistas, a dica para quem pretendia levar o título até o vencimento é manter. “Vender um título que rende 14% garantidos para reinvestir a taxas menores reduz o retorno futuro da carteira”, diz Deischl. Segundo ele, o investidor precisa se questionar onde vai reinvestir esse lucro.
Já para quem alocou pensando em posições táticas, a realização parcial de ganhos pode fazer sentido, destacam os especialistas.
Como fica a renda fixa?
Com o Ibovespa negociando acima dos 200 mil pontos e mais cortes de juros esperados para os próximos meses, a renda fixa pode começar a parecer despriorizada. Afinal, vale a pena investir ainda ou se perdeu o timing?
Na visão de Leite, da Barsi Investimentos, vale a pena sim, porque no Brasil até o passado é incerto e o cenário pode mudar a qualquer momento.
Para Castro, renda fixa e bolsa não deveriam ser categorias excludentes e sim complementares num portfólio. “Comparar os títulos com os 200 mil pontos do Ibovespa é comparar o retorno de dois ativos ignorando que um pode cair 20% e o outro não”, comenta.
Ele destaca que vale mais a pena dividir a carteira por função, colocando ativos pós-fixados para reserva e liquidez, prefixados para prazos médios e ativos IPCA+ para objetivos longos, preservando o ganho real do dinheiro.
Dadoorian alerta ainda para o investidor não cometer o erro de perseguir sempre o ativo que mais subiu. “Esse comportamento pode fazer com que o investidor esteja sempre chegando atrasado aos movimentos”, pontua.
Debêntures pedem seletividade
Os índices de debêntures mostram um contraste por indexador. O IDA DI rendeu 10,87% no ano e 3,53% no trimestre, acima do CDI, mas perdeu dele em setembro (0,96% contra 1,08%). O IDA IPCA acumula 4,76% em 2026, menos da metade dos 10,11% do IMA-B Total e avançou 0,85% em setembro, contra 3,15% dos títulos públicos indexados à inflação. O IDA Geral, que reúne todos os tipos de debêntures, soma 7,91% no ano.
“O investidor dessa classe assumiu risco de crédito adicional e recebeu menos da metade do retorno do título público”, afirma Deischl, que segue cauteloso com crédito privado. Os especialistas lembram que as debêntures, títulos de dívida das empresas, não possuem proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em caso de quebra e muitas empresas estão renegociando dívidas atualmente ou em recuperação judicial.
Leite e Castro ainda enxergam espaço para as debêntures incentivadas, isentas de imposto de renda, desde que o emissor seja escolhido com critério. A dica é acessar principalmente via fundos de infraestrutura.