Ainda vale a pena investir em ações do Varejo? Entenda as perspectivas para o setor
Diferentes segmentos do varejo tendem a reagir de maneiras distintas à queda da Selic, fator considerado relevante para o setor
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
O setor varejista brasileiro tem vivido momentos alternados de expansão e desvalorização nos últimos anos, em meio aos ciclos de recuperação da economia no pós-pandemia e momentos de contração do consumo. O varejo, que experimentou um patamar recorde de vendas em março, apresentou uma queda de 1,5% no volume de vendas em abril, em relação ao mês anterior, conforme dados divulgados recentemente pelo IBGE, o que pode sinalizar um recuo do consumo doméstico.
Ao mesmo tempo, uma parte do mercado mantém uma visão mais construtiva para o setor, especialmente por conta de uma possível flexibilização da política monetária para os próximos anos. Essa perspectiva ganhou força após o corte de 0,25 ponto percentual feito pelo Banco Central (BC) neste mês.
Em meio a esse cenário volátil, o investidor se questiona: vale a pena olhar para o varejo como uma oportunidade de investimento?
Isso vai depender do cenário macroeconômico à frente e também do perfil do investidor. Tradicionalmente, o setor é visto com cautela, isso porque ele é intrinsecamente atrelado a variáveis como juros, renda e inflação. A depender desses índices, o consumo pode perder tração e pressionar os papéis das varejistas.
A perspectiva de melhora do cenário macroeconômico, especialmente com a expectativa da redução da Selic para 14% até o fim de 2026, pode indicar um ambiente favorável para a atividade varejista e o consumo. Contudo, os riscos não estão totalmente descartados. Segundo a mais recente edição do Boletim Focus, divulgada pelo BC nesta segunda-feira, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o índice oficial para medir a inflação no Brasil, deverá encerrar o ano em 5,33%, acima da projeção anterior, de 5,3%. Além da inflação, existe também a possibilidade de um novo período de volatilidade a ser desencadeado pelas eleições de outubro.
Desde o início de 2026, o Índice de Consumo da B3 (ICON) tem operado por volta dos 3.000 pontos. No mês de junho, o índice tem se mantido estável em torno de 2.800 pontos, uma redução de cerca de 8% na variação anual. Isso se deve, em parte, porque os mercados ainda enxergam um cenário macroeconômico pouco estável, em particular por conta da projeção de inflação acima da meta.
Nesse contexto, os diferentes segmentos do varejo tendem a reagir de maneiras distintas. O segmento de varejistas de consumo não cíclico, menos afetado pela volatilidade econômica e choques externos, como farmácias e supermercados, apresenta uma maior resiliência. Já aqueles voltados ao consumo discricionário, como eletrodomésticos, eletrônicos e vestuário, são mais suscetíveis a fatores como a taxa de juros e ao consequente encarecimento do crédito.
O professor da Fundação Getúlio Vargas e da SBS Strong Business School, Ulysses Reis, avalia que o desempenho do setor dependerá da capacidade das empresas de adaptar seus modelos de negócio, com foco nas novas demandas do consumidor e em parcerias estratégicas.
“O perfil de compra das novas gerações mudou, contudo, uma parte do varejo ainda tem um modelo dos anos 1990. Então, o que vai realmente criar oportunidades para o setor são as associações que vão surgir, o chamado ecossistema empresarial, com grandes grupos de parceiros de todos os tamanhos unidos para se otimizarem e investirem numa visão mais moderna de logística e tecnologia”, afirmou.
“O investidor deve prestar atenção nisso, em quais empresas estão investindo em inovação, quais apostas são mais seguras. Acredito que existam chances muito boas [no setor]”, completou.