Tensões geopolíticas enfraquecem dólar, mas desdolarização ainda é distante, dizem especialistas
Desempenho do dólar em relação a outras moedas no mundo teve queda de cerca de 10% em 2025
Por Victor Rabelo
No último século, o dólar se consolidou como principal moeda de reserva e comércio, exercendo uma posição de destaque na economia global. Esse protagonismo, porém, começa a ser questionado à medida que a moeda estadunidense enfraquece e outros países buscam se proteger da volatilidade cambial e do risco geopolítico, diminuindo sua dependência do dólar.
Como exemplo deste cenário, o DXY, indicador que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de diversas moedas no mundo, teve queda de cerca de 10% em 2025. No mesmo sentido, por ser considerado uma reserva de valor, o ouro tem renovado suas máximas históricas constantemente. Além disso, países de blocos econômicos, como o Brics, discutem formas de estabelecer uma relação comercial sem depender do dólar, enquanto a relação entre EUA e Europa estremece por conta da disputa pela Groenlândia.
Jeffry A. Frieden, professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Columbia University, participou de painel sobre desdolarização durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, e argumentou que “a confiança na moeda também implica na confiança no governo emissor, que não permitirá que a política ou a geopolítica interfiram indevidamente no uso da moeda e na estabilidade financeira monetária”.
Para Frieden, isso entra em jogo quando há tensões entre os principais atores políticos do mundo. Ele argumentou ainda que, apesar da imprevisibilidade do governo de Donald Trump, os Estados Unidos usaram constantemente, nas últimas duas décadas, a força do dólar para propósitos geopolíticos.
Kristin J. Forbes, professora de Economia Global da MIT, concordou que se os Estados Unidos tiverem um papel menos importante na econômica global, haverá menos demanda por dólares, mas ponderou que o dólar já se desvalorizou em outros momentos da história, mas que, ainda assim, segue sendo protagonista.
Forbes explica que o dólar ainda domina em termos de transações comerciais, empréstimos e que o único fator que precisa ser observado com cautela é a participação das reservas cambiais. “Os bancos centrais do mundo diminuíram as reservas em dólares, em parte por conta dessas preocupações (geopolíticas)”. Ela argumenta ainda que “essa é a única área em declínio, mas o setor privado simplesmente quer continuar fazendo negócios com a moeda mais líquida”, completa.
Por fim, em sua fala, Kenneth Rogoff, professor de Economia Internacional de Harvard, ressaltou que o dólar já passou por altos e baixos, que o momento é de declínio, mas que o domínio de uma moeda com essa força não muda da noite para o dia.
Rogoff explica que, para ameaçar o protagonismo estadunidense, seria necessário “um sistema bancário e de compensação que não passem pelos Estados Unidos, sendo que eles têm não apenas a principal moeda, mas também são a principal potência militar”. Segundo ele, os chineses perceberam isso há alguns anos e estão se mobilizando para desenvolverem sua própria maneira de realizar transações internacionais por meio de tecnologias modernas.