Veja como se preparar para o seu primeiro day trade
Reconhecer riscos, estabelecer limites e manter o controle emocional são alguns dos cuidados que ajudam um iniciante na preparação para o day trade
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Uma das opções mais dinâmicas proporcionadas pelo mundo dos investimentos, o day trade consiste numa estratégia em que o investidor realiza a compra e a venda de ações e outros ativos no mesmo dia, na intenção de obter ganhos com a flutuação dos preços.
Na prática, ele funciona no seguinte modus operandi: um investidor vende um papel a R$ 20 às 13h e recompra o mesmo ativo às 18h por um novo preço, de R$ 19,40, com um ganho de 60 centavos devido à queda na cotação desse ativo (prática conhecida como venda a descoberto ou short). O mesmo pode ocorrer no sentido inverso: o investidor compra o ativo a um preço menor e o vende após uma valorização em poucas horas.
Essa volatilidade faz com que o day trade seja considerado uma estratégia altamente especulativa, que se encaixa melhor no perfil de investidores com maior tolerância a riscos.
Isso, porém, não significa necessariamente que um iniciante não possa entrar nesse jogo. Não existe um perfil ideal de quem pode ser um day trader, mas esse investidor, especialmente um novato, precisa ter em mente a definição de alguns limites antes de se aventurar nesse universo.
Antes de tudo, é preciso aceitar os riscos
“O iniciante precisa entender que isso não é uma modalidade de investimento, é uma atividade operacional, com rotina, método e controle de risco, e por isso exige preparação diferente de quem compra ação de forma mais tradicional”, resume André Matos, CEO da MA7 Capital.
De modo geral, a primeira recomendação feita por analistas é que o day trader precisa aceitar os riscos como uma parte inerente ao processo, e que, muito provavelmente, ele deverá perder algum capital ao longo do caminho.
Por isso, torna-se crucial que esse investidor trace limites de perda e também metas de lucro que o auxiliem a ter uma experiência positiva, conforme explica o economista Alex André.
“Ele precisa definir um limite diário de perdas, pois, obviamente, ele perderá dinheiro em alguma operação, é parte do processo”, diz. “Isso, claro, poderá variar a depender do apetite de risco de cada um.”
Definição de metas e equilíbrio emocional
Nesse sentido, o estabelecimento de limites como o “stop gain” e o “stop loss”, que atuam como freios em meio às operações de day trade, pode guiar o investidor e auxiliá-lo no gerenciamento de risco.
O stop gain funciona quando o investidor define um “teto” de preço que determina a saída da operação quando o ativo atinge determinado nível. Por exemplo, para um papel de R$ 20, fica definido um stop gain em R$ 24. Quando ele chega a esse patamar, a venda acontece de forma automática, garantindo o lucro estabelecido.
Já o stop loss acontece quando há a suspensão da operação assim que um ativo atinge um patamar pré-definido de redução no preço. Pensando no mesmo papel de R$ 20: fica estabelecido um stop loss em R$ 16. Quando a cotação atinge esse nível, a operação é automaticamente encerrada para evitar maiores prejuízos.
A definição dos contrapesos não é fixa. Os valores atrelados ao stop gain e stop loss ficarão a cargo do perfil de risco de cada um. A delimitação desses limites é recomendada ainda para uma maior proteção da capacidade de investimento e a manutenção do equilíbrio emocional do investidor.
O critério emocional, aliás, é um fator importante a se considerar no day trade. Alex André menciona que é imprescindível que o day trader consiga se manter estável e resiliente mesmo diante de uma sequência de perdas, para reavaliar as decisões tomadas e evitar cair em armadilhas como o revenge trade, uma reação impulsiva em que o investidor tenta, de forma abrupta e pouco calculada, reaver uma quantia perdida em uma nova operação.
“É preciso ter sangue frio, entender que o jogo do day trade é de longo prazo. A dinâmica pode desencadear um sentimento mais associado ao curto, afinal, é uma operação no mesmo dia, mas é a consistência que vai ditar o retorno do portfólio ao longo do caminho”, afirma o economista.
Atenção à proteção do portfólio
Para alguém que está iniciando na prática, uma outra recomendação diz respeito à proteção do portfólio. O ideal é que o investimento inicial seja apenas uma pequena fração do capital total disponível, como se esse início fosse uma espécie de termômetro, uma simulação antes da partida real.
Isso ajuda a identificar tendências do mercado, observar possíveis riscos e evitar um comprometimento do capital que possa asfixiar a capacidade de investimento.
“Para o iniciante, o principal cuidado é reconhecer que se trata de uma atividade de alto risco e não de um caminho garantido de ganhos rápidos. É fundamental operar apenas com capital que possa ser perdido integralmente sem comprometer o orçamento pessoal ou familiar”, diz Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital.
Uarian menciona que essa preparação passa por um processo de educação contínua, que engloba testes com contas de simulação antes da aplicação de dinheiro real e a definição de um plano estruturado, com metas definidas de compra, venda e capital alocado em cada operação.
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, ressalta que é importante observar sinais que ajudem a identificar um momento favorável para comprar ou vender os ativos.
“Um método objetivo, que permita identificar quando comprar, quando vender e, principalmente, quando não fazer nada, ajuda a reduzir decisões impulsivas”, pontua Murad.
“O day trade pode fazer parte de uma estratégia tática, mas não substitui a construção de patrimônio com diversificação, controle de risco e horizonte adequado. O objetivo deve ser operar com método e preservar capital antes de pensar em rentabilidade”, acrescenta.
A própria B3 possui um portal voltado exclusivamente ao tema, com um guia e outras ferramentas que ajudam o investidor a entender como funciona a prática, quais os riscos associados e também para que ele entenda se o day trade funciona para o perfil dele.
O day trade é uma operação de renda variável cujos ganhos não são isentos de imposto de renda (IR). Ele funciona por meio do monitoramento contínuo de gráficos intraday e de plataformas de negociação, também chamadas de home broker.
Além das dicas mencionadas, ficar atento às mudanças do cenário macroeconômico e ao noticiário é essencial para entender e tentar prever alguns movimentos do mercado.