Tipos de investimentos

A renda fixa é muito fixa!

Dados com setas exemplificam o aumento e baixa de juros; renda fixa. Foto: AdobeStock
A Selic é taxa básica de juros do Brasil, e grande parte dos investimentos de renda fixa se baseiam nela

Homem branco, com cabelo castanho claro. A foto o retrata de forma lateralizada, com uma camisa polo azul.

Arthur Vieira

@arthurvmoraes

Professor de finanças, palestrante, consultor, apresentador e sócio do Clube FII


No texto anterior expliquei a diferença entre renda fixa e variável. Leia aqui se você ainda não tem clareza sobre esses conceitos. Agora vamos mergulhar apenas na renda fixa para acabar com uma ideia errada, de que a renda fixa não é fixa.

Vamos olhar para três fatores desse tipo de investimento. Um é fixo, a renda. Os outros dois variáveis, que são preço e rentabilidade. Segue um exemplo para facilitar.

Imagine que eu tenho um apartamento, comprado por R$ 1.000.000, e o alugo para você. Assinamos um contrato em que você se obriga a me pagar R$ 5.000 por mês de aluguel.

Então meu investimento tem preço de R$ 1.000.000 e me gera renda mensal de R$ 5.000, que equivale a rentabilidade de 0,50% ao mês.

Encontramos a rentabilidade multiplicando por 100 o resultado da divisão da renda pelo preço. Ou seja:

(5.000 / 1.000.000) x 100 = 0,50% ao mês.

Logo após assinar esse contrato com você, mudo de planos e preciso vender o imóvel. Ofereço meu apartamento para minha amiga Julia, que gosta de investir em imóveis. Uma oportunidade de comprar um bom apartamento que já está gerando rentabilidade de 0,50% ao mês. Ela diz que tem interesse, mas apenas se o investimento render 0,60% ao mês.

Então tenho um problema: para vender o apartamento para a Julia ele precisa gerar rentabilidade maior do que gera hoje. Como resolver isso?

Simples! Ligo para você e pergunto se topa passar a pagar R$ 6.000 por mês de aluguel. Afinal, só R$ 1.000 a mais não vai te fazer falta e assim eu consigo satisfazer o desejo de rentabilidade da Julia e vender meu apê. Você aceita mudar o valor do contrato do aluguel?

Vamos manter a educação… não me xingue. Já entendi que você vai dizer que temos um contrato e que você não aceita pagar nada além do que foi fixado. Portanto, a renda do meu investimento imobiliário é fixa, porque está estabelecida por um contrato.

Se não consigo mudar esse fator, como resolver o problema da venda do imóvel? Como fazê-lo ter rentabilidade de 0,60% ao mês para que minha amiga o compre?

Simples! E agora é simples mesmo. Variando o preço. Se eu aceitar vender o apartamento por R$ 833.000, a mesma renda fixa mensal de R$ 5.000 irá gerar rentabilidade de 0,60% para a Julia.

(5.000 / 833.000) x 100 = 0,60%.

A venda por esse preço vai me gerar prejuízo, mas isso não altera em nada a renda do investimento, que é o aluguel que você paga e foi fixado no contrato.

Poderia ser diferente, meu amigo Rodrigo poderia estar disposto a comprar meu apartamento tendo rentabilidade de 0,40% ao mês. Pode ter certeza de que eu não te ligaria propondo baixar o aluguel para R$ 4.000 por mês. Eu aceitaria, feliz, vender o apartamento por R$ 1.250.000, o que faria com que a rentabilidade para o Rodrigo fosse de 0,40% ao mês.

(5.000 / 1.250.000) x 100 = 0,4%.

Eu teria um bom lucro com essa venda e nada teria mudado com a renda. Afinal, ela é muito fixa.

Perceba que, como a renda é fixa, o preço varia para ajustar a rentabilidade.

Com investimentos financeiros acontece exatamente a mesma coisa. O preço dos títulos de renda fixa oscila diariamente porque a renda nunca muda, mas a rentabilidade desejada por investidores sim. Quando o mercado demanda mais rentabilidade (como a Julia), o preço dos títulos cai. Quando o mercado se satisfaz com rentabilidade menor (como o Rodrigo), o preço dos títulos valoriza.

A renda nunca muda pelo mesmo motivo que você, insensível e mesquinhamente, não aceitou me pagar um pouco mais de aluguel. A renda dos investimentos não cai do céu, ela é paga por alguém. A renda de um título de renda fixa vem dos juros de um empréstimo, que foi contratado entre duas partes. A parte que tem obrigação de pagá-los não vai aceitar um aumento do que foi contratado.

Um título como o Tesouro IPCA+, por exemplo, formaliza um contrato de empréstimo onde quem investe empresta dinheiro ao governo. A renda é contratada quando um novo título é emitido, o que acontece em leilões semanais. O quanto o Governo Federal vai pagar de juros fica estabelecido nesse momento e não mudará até o fim do contrato, que acontece no dia do vencimento do título.

Entre a emissão e o vencimento, os títulos podem ser negociados livremente, no que é chamado de mercado secundário. Títulos que já existem e são negociados entre as pessoas. O governo pagará a mesma renda para qualquer pessoa que tiver o título, não importa se o comprou “novo” durante um leilão ou “usado” no mercado secundário. Já a rentabilidade de quem compra o título vai mudar conforme o preço pago.

O mesmo vale para títulos privados, como CDBs, LCIs, LCAs, Debêntures, CRIs, CRAs, dentre tantos outros. A renda virá dos juros pagos por um banco ou empresa de outro setor e será sempre a mesma, porque foi fixada em contrato, no momento da emissão.

A rentabilidade é que pode variar, se o título for negociado antes do vencimento e conforme o preço pago por quem o comprar.

Rememorando uma última vez. O investimento tem preço, renda e rentabilidade. A divisão de renda por preço nos mostra a rentabilidade.

Renda nunca muda, pois é fixa. Preço oscila para ajustar a rentabilidade.

Então não confunda mais renda e rentabilidade. E lembre-se que a renda fixa é muito fixa!

Para os meus colegas professores, devo dizer que perpetuamos essa confusão ao ensinar nos cursos de finanças que existe relação inversa entre preço e taxa. Talvez isso aconteça porque a teoria de finanças estrangeira usa o termo yield, que pode ter muitos significados em português, inclusive renda e rentabilidade. Seria melhor se ensinássemos que existe relação inversa entre preço e rentabilidade.