Investir melhor
Carol Stange: Ter mais não é se preocupar menos – é trocar de preocupação
Existe uma fantasia recorrente de que dinheiro funciona como anestesia: quanto mais você acumula, menos sente
Carol Stange
Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.
Uma cliente minha – dessas que já fazem a lição de casa, reserva pronta, carteira diversificada, nada de dívida no nome – me confessou outro dia que dorme pior do que dormia há cinco anos. Na época, tinha um terço do patrimônio que tem hoje.
“Devia ser o contrário, né?”, perguntou, esperando que eu discordasse. Não discordei. Vi ela pegando o café e continuamos nossa conversa.
Por que ganhar mais não rendeu mais sossego?
Existe uma fantasia recorrente de que dinheiro funciona como anestesia: quanto mais você acumula, menos sente. É a lógica do colchão: quanto mais grosso, mais protegido, sono mais tranquilo. Bonita teoria. Só não combinou com a agenda dessa cliente, que abre o aplicativo da corretora à noite “só para checar uma coisa” e emerge vinte minutos depois tendo recalculado a vida inteira a partir de uma variação de 0,4%.
O que ela tem, e não tinha antes, não é mais dinheiro causando mais medo. É mais peça móvel.
A conta que cresce junto com o patrimônio
Com um CDB e uma poupança, há duas decisões para acompanhar – e nenhuma exige PhD. Com renda fixa diversificada, fundos, alguma posição em ações e um imóvel alugado, são dez frentes, cada uma com tributação própria, prazo próprio, sensibilidade própria a juro e inflação. Quem cresceu de patrimônio não trocou uma preocupação por nenhuma. Trocou uma por dez – e cada uma delas manda notificação.
Tem também a parte chata de saber demais. Quem entende como funciona a marcação a mercado de um Tesouro Prefixado vê problema onde o investidor iniciante vê só um número que sobe e desce. Isso não é desvantagem: é a diferença entre decidir informado e decidir no escuro. Mas enxergar com nitidez cobra pedágio. A cabeça nunca desliga de verdade, porque sempre tem uma linha de raciocínio nova para puxar. Ignorância, nesse ponto específico, tem lá sua paz.
E existe o compromisso que não se negocia fácil. Escola particular dos filhos, manutenção de uma casa maior, plano de saúde que cobre tudo – viraram parte da estrutura, não detalhe de planilha. O problema é que esses compromissos têm a flexibilidade de um contrato de aluguel de cinco anos: pouca. Construído o arranjo, qualquer ruído mais sério não ameaça só o saldo da conta. Ameaça um estilo de vida inteiro, que levou um bom tempo para ficar de pé e que ninguém desmonta da noite para o dia sem dor.
O teste que separa risco real de fantasma
Tem um teste que costumo sugerir nesses casos, e que cabe numa pergunta só:
Essa preocupação aponta para um risco real de fluxo de caixa ou para o medo de perder o controle sobre algo que está, na prática, funcionando?
A segunda categoria é mais frequente do que se assume, e dinheiro extra não resolve.
O café que esfriou
Se dinheiro extra resolvesse esse tipo de preocupação, minha cliente já teria comprado sono com o triplo do patrimônio que tinha antes. Não comprou. A conta cresceu, a vida ficou mais confortável em quase todos os sentidos mensuráveis, e a cabeça dela continua acordando às duas da manhã do mesmo jeito que acordava com um terço disso.
O café esfriou enquanto a gente conversava. Ela nem notou – prova de que o problema nunca foi de saldo.
Ter mais não compra ausência de preocupação. Compra o direito de trocar uma por outra. A diferença entre quem dorme bem de quem não dorme não é o tamanho da carteira. É saber separar o que é risco do que é fantasma – e fantasma assusta do mesmo jeito, sendo grande ou pequeno o patrimônio.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3