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Com expectativa de queda dos juros, investidores precisam voltar a diversificar, diz Rafaela Vitória, do Inter

Em entrevista ao Bora Investir, economista-chefe do banco Inter falou das expectativas para o segundo semestre nos investimentos e na economia brasileira e mundial

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória
A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória

Por Redação B3 Bora Investir

O primeiro semestre passou e com ele se foram as incertezas sobre os rumos que a economia brasileira pode tomar. A sinalização do governo de uma busca por austeridade – diante da nova âncora fiscal – desanuviou os caminhos para uma bolsa mais forte e um câmbio equilibrado.

O PIB melhor no primeiro trimestre também ajudou, mas a taxa básica de juros em 13,75% impediu que o cenário de desinflação pudesse ser sentido pelos brasileiros.

Para o segundo semestre, o mercado espera um início de afrouxamento da Selic a partir de agosto. Cenário compartilhado pela economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória, em entrevista ao B3 Bora Investir.

Para a especialista, a iminência de um corte de juros abre o caminho para a diversificação dos investimentos. “Sempre recomendamos que o investidor se mantenha alocado em ações, porque a gente não sabe exatamente o momento que a bolsa vai fazer essa precificação de queda dos juros”.

Apesar da expectativa de início do afrouxamento monetário, os próximos seis meses devem ser de economia fraca. Pesam para essa projeção o crédito ainda escasso e a economia mundial debilitada, com juros escalando para conter a persistência da inflação.

 Acompanhe os principais trechos da entrevista.

B3: O primeiro semestre foi marcado por uma melhora da economia brasileira, um câmbio mais amistoso, uma bolsa ainda reticente com o novo governo – mas que deslanchou – e a discussão sobre juros. Qual balanço você faz dos primeiros seis meses do ano?

Rafaela: A gente teve um começo de ano bastante tumultuado, com ruídos no mercado e uma transição de governo que trouxe muita incerteza. Desde o fim das eleições, a gente teve a discussão da PEC de Transição que trouxe uma incerteza grande com relação à piora fiscal no Brasil.

Assim o ano começou com um sentimento bastante negativo no mercado que impactou os preços dos ativos. Se falava inclusive em alta da Selic diante desse impulso fiscal que poderia deteriorar o cenário de inflação. A gente viu também na economia e nos índices de confiança essa deterioração.

Então foi um ano que começou com bastante incerteza, com muito ruído vindo do governo, mas o semestre terminou melhor. Ao longo dos seis primeiros meses a gente viu a redução desse ruído. Boa parte das medidas aventadas e alguns retrocessos não foram para frente.

Com isso o mercado se sentiu um pouco mais aliviado e terminamos o semestre com uma expectativa um pouco melhor para o ano e com a redução dos prêmios de risco no mercado.

B3: Quando você fala em retrocessos, seriam alterações em propostas já aprovadas pelo Congresso?

Rafaela: Exato. A gente teve uma série de anúncios de revisão na reforma Trabalhista, da Previdência, mudança na Lei das Estatais, o próprio decreto do Marco do Saneamento – retirando alguns avanços – e até a discussão sobre a meta de inflação e o papel do Banco Central. Foram muitas declarações que trouxeram incerteza.

No entanto, os projetos que de fato avançaram na Câmara não foram nessa linha, até o contrário. O Arcabouço Fiscal que avançou foi mais positivo do que se esperava, a reforma tributária. O decreto do saneamento foi derrubado e várias Medidas Provisórias caducaram ao longo do semestre.

Portanto, como a gente viu, existe algum equilíbrio entre o Congresso e o Executivo que impediu esses retrocessos de acontecerem.

B3: Para o segundo semestre, mais precisamente em agosto, há expectativa de um início de cortes nos juros pelo Copom – diante de uma inflação mais comportada. Como você acredita que vai se dar esse afrouxamento monetário?

Rafaela: A inflação começou o ano com repique. Em janeiro e fevereiro a gente teve leituras mais elevadas por conta da alta do salário mínimo e do Bolsa Família. Isso deu um impacto no estímulo ao consumo e acabou resultando em um pouco mais de inflação.

Nos últimos meses, a queda das commodities e o efeito da política monetária – que é defasado – vem resultando nessa redução da inflação e, junto com isso, há o avanço do arcabouço fiscal.

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A definição da meta em 3% [em 2026] trouxe de volta a credibilidade para a política monetária e a gente viu as expectativas de inflação também caírem. Então a gente teve queda da inflação corrente e das expectativas. Portanto é esse cenário que vai permitir o início de corte de juros a partir de agosto.

Nossa previsão é o corte começando em 0,25 ponto percentual. Depois, diante dessa evolução da inflação, deve aumentar para 0,50 ponto percentual e terminar o ano em 12%.

B3: Pelo lado da bolsa brasileira, você acredita que esse cenário de desaceleração da Selic já está precificado? E como fica a renda fixa?

Rafaela: A gente teve uma melhora na bolsa somente da expectativa dos juros caírem, portanto, a queda da Selic já está precificada na curva, que é esse cenário positivo do mercado.

Quando os juros começarem a cair, vamos poder ver um fluxo maior de volta para a bolsa, também ao longo do próximo ano. O investidor tende a esperar para ver o cenário se concretizar na prática.

Os juros altos significam um retorno elevado para a renda fixa, o que faz o investidor ficar um pouco mais resistente em fazer uma diversificação da carteira. No entanto, sempre recomendamos que o investidor se mantenha alocado em ações, porque a gente não sabe exatamente o momento que a bolsa vai fazer essa precificação. Ela pode antecipar esse corte e às vezes esse movimento é muito rápido.

Portanto, o investidor não deve esperar os juros caírem para alocar em bolsa. De uma maneira geral, considerando o histórico, esse movimento de apreciação com queda dos juros é mais moroso, mas o espaço para a bolsa subir hoje é maior.

B3: No câmbio, o dólar segue abaixo dos cinco reais – apesar de uma apreciação na última semana. O real deve voltar a ganhar força ou chegamos a um platô?

Rafaela: O câmbio sofre influência de vários fatores, domésticos e internacionais. Hoje a gente tem fundamentos positivos no Brasil, seja pelo lado da balança comercial ou do investimento direto estrangeiro, que continua robusto. Além da redução do risco fiscal que também foi um fator que contribuiu para essa apreciação do câmbio ao longo do semestre.

A gente tinha um cenário um pouco melhor, favorecendo o Real, com o Federal Reserve [banco central dos Estados Unidos] sinalizando um possível fim do ciclo de aperto monetário. Mas o cenário lá fora teve uma deterioração. Passamos a ver a atividade um pouco aquecida e a inflação mais persistente. Então, é um cenário que a gente precifica uma alta de juros pelo Fed e isso acaba pesando porque fortalece o dólar.

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Nesses últimos dias, o câmbio acabou se desvalorizando, mais pelo cenário externo do que interno. Para o segundo semestre temos essa visão de equilíbrio. O nosso câmbio esperado para o ano é R$ 4,90, já que os juros mais altos lá fora por mais tempo vão impedir o real de ter uma valorização mais significativa.

B3: Soma-se a esse cenário global que você citou, a resiliência da inflação?

Rafaela: A inflação se mostrou um pouco mais resistente. Se a gente pegar o ciclo de aperto monetário lá fora, ele demorou para se iniciar e foi bem devagar.

Os bancos centrais fora do Brasil foram cautelosos na subida de juros. Assim a política monetária só começou a ficar restritiva agora. Então, é natural que a economia ainda não tenha desacelerado. Portanto será preciso um pouco mais de paciência, porque os bancos centrais vão manter juros mais altos e por mais tempo.

A inflação tende a demorar um pouco mais para convergir para a meta. Mesmo assim, é provável que não haja subidas de juros mais dramáticas daqui para. Talvez uma ou duas altas de 0,25 ponto percentual pelo Fed.

A consequência disso é que a inflação demora um pouco mais para convergir e teremos um crescimento mais fraco possivelmente até 2025.

B3: Do lado brasileiro, temos a reforma tributária que passou na Câmara e o arcabouço fiscal que deve ser apreciado novamente pela casa em agosto. Diante dessas pautas, o que esperar para a economia brasileira no segundo semestre?

Rafaela: Apesar da redução do pessimismo no final do primeiro semestre, eu acho que o segundo vai ser de atividade fraca.

A gente tem o impacto da política monetária no consumo e o significativo aperto no crédito, com os bancos ainda cautelosos. Assim, não teremos uma significativa aceleração de empréstimos no segundo semestre, mesmo com o início do corte de juros.

Então é um cenário que o Produto Interno Bruto deve ficar parado nesses próximos meses, sem a grande movimentação que a gente tem visto. Os dados da indústria e do varejo também tem se acomodado.

Não esperamos recessão ou uma destruição de empregos, mas sim um PIB mais estável, o que já é bom. Porque se você pensar o patamar de inflação que a gente estava e o aperto monetário que o Banco Central fez, é um cenário relativamente positivo. A economia desacelera, a inflação volta para a meta e a gente não tem uma recessão.

A gente espera um PIB de 2% para o ano, basicamente reflexo da agropecuária e do aumento na exportação. Para o ano que vem a situação é semelhante. A gente tem uma previsão de alta na casa dos 1,5% para o PIB em 2024. Não tem mágica que possa ser feita para acelerar esse crescimento.

No curto prazo, a política monetária ainda vai ser restritiva e vamos ver o impacto disso nos investimentos que caíram nos últimos meses e isso tem implicações para o PIB à frente.

Temos ainda o risco de o governo querer fazer estímulos adicionais de curto prazo para tentar estimular a economia e esse não é o momento. Um exemplo recente foi o do setor automobilístico, que foi pequeno e com pouco impacto fiscal e na atividade.

O que o Brasil precisa para estimular a economia é fazer o arranjo da casa. A inflação voltar para a meta, os juros em queda e aí sim, a economia pode retomar seu crescimento. Isso leva tempo. Se você atropelar esse processo, gera-se mais problemas para a frente.

B3: A China é o maior parceiro comercial do Brasil e está em desaceleração. Você acha que pode impactar o nosso PIB?

Rafaela: Já impactou e vemos isso nas commodities que caíram e nos volumes da indústria extrativa que não são mais positivos. A China foi a grande decepção do ano em termos de crescimento e essa desaceleração do país vai continuar.

A China tem se tornado uma economia madura e com crescimento maior focado em serviços domésticos. Portanto não vemos espaço para o país ser uma grande oportunidade para puxar o crescimento do Brasil.

B3: E nem o acordo entre o Mercosul e a União Europeia que segue estagnado diante de impasses ambientais?

Rafaela: A balança comercial brasileira vai bem independente do acordo com a União Europeia e a da economia chinesa. Então, nesse sentido o Brasil se sai bem.

Se a gente pegar outros emergentes – como Argentina, Turquia e Rússia – todos têm os seus problemas. Mas Brasil, México e o Índia são países que atraem mais investimento estrangeiro. Então, no relativo, eu diria que o Brasil ainda se destaca. E isso é positivo no relativo, porque no absoluto, a demanda global está mais fraca.

A nossa expectativa é que a gente não tenha um crescimento global significativo nos próximos dois anos – nem nos Estados Unidos, nem na Europa e nem de China. No relativo, o Brasil deve continuar indo bem e a balança comercial será o ponto positivo para o nosso crescimento.

B3: Diante de tantos fatores importantes da conjuntura brasileira e mundial, quais pontos o investidor precisa ficar atento na hora de montar a sua carteira?

Rafaela: A queda de juros é um ponto importante. O investidor precisa se posicionar e lembrar que a Selic a 13,75% não é para sempre. A renda fixa tem sido muito boa, mas daqui para frente o investidor que está muito concentrado nela precisa pensar em diversificar.

A diversificação global também é um ponto importante. O Brasil tem potencial para melhorar, mas o investidor precisa se proteger de riscos. Ainda temos incertezas no cenário, a inflação pode voltar a acelerar no país. Portanto ter uma parte da carteira fora do Brasil é importante.

Concluindo: o investidor que ainda não fez essa diversificação na carteira, agora é um ótimo momento.

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