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Selic: mantém ou corta? Veja os argumentos a favor e contra os juros em 13,75%

O atual nível da taxa Selic é alvo de críticas por setores da sociedade, enquanto outros defendem a estratégia adotada pelo Banco Central

Porcentagem do real
A Selic é a taxa básica de juros do Brasil. Foto: Adobe Stock

Por Guilherme Naldis

A Selic tem dado o que falar.  Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a taxa básica de juros foi mantida no mesmo patamar pela sétima vez seguida. O juro terminal do Brasil, determinado pelo Banco Central, saltou de 2% no início de 2021 para 13,75% em agosto de 2022 – e permaneceu neste nível desde então.

O porcentual elevado se deve, segundo o Bacen, à estratégia de controle da inflação e de calibragem das expectativas dos agentes econômicos. A consequência é que o Brasil tem figurado, por isso, no topo das listas de maior juro real do mundo – o que pode prejudicar o crescimento do país, segundo especialistas ouvidos pelo Bora Investir. 

A tática de controle do aumento dos preços é alvo de críticas de diversos setores da sociedade. Políticos e empresários argumentam que o ciclo de juros alto está sufocando a economia e travando seu crescimento. 

Do outro lado, os defensores da Selic elevada argumentam que o processo de desinflação previsto pelo Banco Central ainda não se consolidou, e reduzir a Selic precocemente poderia fazer o poder de compra da população voltar a diminuir.

Como a decisão do Copom foi recebida pelo mercado?

O tema é delicado e está bem longe de se alcançar um consenso. No entanto, o Banco Central atendeu, parcialmente, ao que foi dito pela maioria dos economistas ouvidos pela pesquisa Focus. O comunicado buscou conter um excesso de otimismo do mercado com relação à trajetória da Selic, ao mesmo tempo que aliviou trechos vistos como muito agressivos, explica Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe da Warren Rena.

“O Copom abriu as portas para o início do ciclo de relaxamento monetário, mas sem se comprometer com a próxima reunião”, explica Goldenstein. Antes da divulgação oficial, na última quarta-feira, 21/06, era esperado que a taxa básica de juros fosse mantida a 13,75%, ainda que existissem apostas de que os juros viriam a cair naquela mesma reunião. O que frustrou os agentes do mercado foi o tom do comunicado: tido como mais severo que o necessário.

A expectativa era que o colegiado indicasse, mais claramente, que a Selic poderia ser revista na reunião seguinte, marcada para os dias 01/08 e 02/08. “A trajetória de juros projetada pelo consenso dos economistas ainda não leva, nos cálculos do BCB, ao centro da meta de 3% – fator este que poderia favorecer um início de ciclo de cortes posterior à reunião de agosto”, conta Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, em relatório.

“O comunicado mostrou alguma flexibilização no tom, ainda que insuficiente para ser entendida como uma sinalização clara de um corte na taxa Selic na reunião do início de agosto”, aponta Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú.

Para ele, o Copom se mostrou reticente, ao passo que os investidores estão dobrando a aposta e mantendo a visão de corte no próximo encontro. “Estamos em mais um daqueles períodos em que os dados serão os verdadeiros capitães deste navio”, afirma. 

Inflação controlada: como os Bancos Centrais definem a taxa de juros?

Quais os argumentos para cortar a Selic?

Vários setores da sociedade têm se movimentado em prol da redução da taxa básica de juros. Semanalmente, associações de setores empresariais vêm a público para demonstrar sua insatisfação e políticos de todas as colorações ideológicas criticam os diretores do Banco Central. Os principais argumentos são:

O Brasil é o campeão dos juros reais

Com o juro terminal de 13,75% e com a inflação acumulada de 12 meses de 3,94%, o juro real é de 9,4% ao ano. O cálculo é, somente, a subtração de um pelo outro. O porcentual faz do Brasil o país com maior juro real do mundo. O segundo colocado no ranking, o México, está no patamar de 6,6%.

Quem é contra o patamar atual afirma que a situação é um grande inibidor para investimentos e compromete a geração de empregos no país.

As contas públicas estão caras

O financiamento do Governo Federal é feito, parcialmente, através da dívida pública. Funciona como um cartão de crédito: o governo não tem o dinheiro na conta necessário para fazer a política pública X ou Y. Por isso, ele parcela.

A questão é que essas parcelas são alvo de juros contraídos pelos bancos comerciais. Estas instituições, por sua vez, baseiam o custo dos seus empréstimos na Selic. Portanto, a taxa Selic alta significa que todo tipo de crédito no Brasil fica mais caro – até mesmo quando é o Estado quem vai pagar.

O povo gasta menos

A grande “mágica” por trás das políticas monetárias contracionistas – que tentam controlar a inflação deixando os juros mais caros – é o efeito de contenção dos gastos da população. Afinal, a Selic é o juro básico terminal do Brasil: não há nenhuma taxa menor que ela.

E, se a Selic está alta, todos os outros tipos de juros também estarão. Isso vai desde o cartão de crédito até os juros dos financiamentos de imóveis e automóveis. Por isso, fica mais caro para a população se endividar. Assim, as pessoas compram menos. Se há menos compras, há menos vendas, e as empresas têm dificuldade de expandir seus negócios já que as receitas diminuem. 

Quem é quem na estrutura do sistema financeiro nacional?

E quem argumenta a favor da Selic atual?

Da parte de quem defende as últimas decisões do Banco Central, os argumentos giram em torno de temas mais complexos da economia e que podem não parecer tão óbvios. Por isso, os economistas e investidores deste campo tendem a reafirmar os argumentos que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e os demais diretores da autarquia usam para defender a estratégia. Os pontos são:

A coisa está feia lá fora

A pandemia de Covid-19 não foi um problema somente sanitário, mas também econômico. Por mais que, hoje, existam vacinas e os tratamentos contra a doença sejam mais eficazes, a emergência deixou um rastro no mundo inteiro: a inflação.

Para evitar que a economia fosse sufocada pelas medidas de restrição de circulação, muitos países deram estímulos ao consumo para as populações, que foram desde redução da carga tributária até o envio de dinheiro para as mãos dos cidadãos. Entre outras coisas, muitos bancos centrais optaram por reduzir drasticamente suas taxas básicas de juros para estimular o consumo.

Acontece que estas medidas funcionaram, mas a consequência foi uma inflação persistente no mundo inteiro. Em particular, na Europa e nos Estados Unidos, cujos juros ainda estão em ciclo de alta. A centralidade destas regiões na economia global faz com que as decisões tomadas por lá mexam com o mundo inteiro. Por isso, é preciso estar atento ao que rola por lá, já que os impactos podem se estender ao Brasil também. 

A inflação pode voltar 

As projeções de inflação do Bacen ainda apontam para a necessidade de algum progresso adicional no processo de desinflação. Para a autarquia, os dados recentes demonstram que, por um lado, o processo atual de desinflação tende a ser “mais lento”. 

Por outro, o Banco Central diz que a estratégia de manter a taxa Selic nos níveis atuais por um longo período “tem sido adequada” para assegurar a convergência da inflação. Apesar de reconhecer progressos, a ideia do Banco Central é esperar que a taxa de aumento dos preços entre, de fato, dentro das metas e que o Governo mostre, de uma vez por todas, o que será feito com a política fiscal. Só assim, então, a inflação estaria contida. 

As expectativas sobre a Selic não estão ancoradas

O mercado projeta suas previsões na curva de juros em tempo real. E o Bacen sabe disso, por isso a acompanha. Segundo os defensores da taxa de juros corrente, a curva de juros atual indica que o mercado ainda teme por um rebote da inflação.

E, se as expectativas estão desalinhadas, o Banco Central precisa se esforçar mais para convencer a todos de que está tudo bem. Por isso, a instituição tem insistido na estratégia de manutenção do nível da Selic – de maneira a reafirmar sua preocupação com a inflação do Brasil e sua determinação em contê-la.

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