82% dos brasileiros associam dificuldades financeiras ao adoecimento mental, aponta pesquisa
Levantamento da ABEFIN destaca que 82% dos entrevistados relacionam, em algum grau, problemas financeiros ao surgimento de transtornos psicológicos
Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
A deterioração do bem-estar mental e o surgimento de transtornos psíquicos estão diretamente associados às dificuldades econômicas enfrentadas pela população brasileira, conforme pesquisa recente feita pela Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (ABEFIN), em parceria com o Instituto Axxus. Segundo o levantamento, cerca de 82% dos entrevistados relacionam o adoecimento mental aos problemas financeiros. Para especialistas ouvidos pelo Bora Investir, esse panorama está relacionado a fatores como a perspectiva remota de melhora econômica e à limitada difusão da educação financeira.
O estudo da ABEFIN mostra também que, para mais de um terço dos entrevistados, as finanças foram a principal causa de adoecimento mental, superando problemas familiares, afetivos e mesmo o luto. Já 27% mencionam o fator como única origem dos transtornos psicológicos.
Somente 20% acreditam numa perspectiva de melhora da condição econômica, ante 67% que possuem uma visão negativa sobre o futuro de suas finanças pessoais. Isso reflete a dificuldade da população em manter o otimismo diante de uma sociedade marcada por baixas oportunidades de mobilidade social e pela alta concentração de renda.
Para Carol Strange, educadora e consultora financeira independente, os indicadores e a relação do brasileiro com o dinheiro também refletem uma percepção de instabilidade contínua no cenário macroeconômico, associada a um “trauma” por conta do período anterior ao Plano Real, e, mais recentemente, à desaceleração econômica vivida pelo país na segunda metade da década passada.
“Quem viveu o Plano Collor, os diferentes planos econômicos, a hiperinflação dos anos 1980 e 90, e mais recentemente a sequência de crises fiscais e monetárias, incorporou uma desconfiança profunda de que a situação poderia melhorar de forma sustentada. Essa memória coletiva cria um viés pessimista que é uma resposta aprendida. O brasileiro, de modo geral, não acredita em planejamento de longo prazo porque o longo prazo raramente funcionou como esperado”, afirma.
Strange menciona ainda que a relação do brasileiro com o dinheiro é marcada por um peso simbólico atrelado ao status social do indivíduo, característica típica de sociedades marcadas pela elevada desigualdade social. Essa “vergonha” em relação ao assunto dificultaria o debate e, consequentemente, perpetuaria o ciclo de endividamento e sofrimento mental.
“A relação entre economia e saúde mental é bidirecional: o estresse financeiro deteriora o bem-estar, e o desequilíbrio emocional prejudica decisões orçamentárias. Quem está ansioso gasta impulsivamente. Quem está deprimido não consegue executar nem o planejamento mais simples. Esse ciclo só se rompe quando a conversa, com um profissional, com a família, ou consigo mesmo, deixa de ser tabu”, avalia.
“Enquanto o dinheiro permanecer um assunto proibido, ele seguirá sendo uma fonte de sofrimento”, completou.
Bolívar Godinho, professor de Finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), ressalta que, no Brasil, existem muitos estímulos para consumir e poucos para poupar dinheiro, o que ajudaria a explicar não somente a baixa difusão da educação financeira como também o fenômeno das casas de apostas, popularmente conhecidas como bets.
“Falar sobre dinheiro é desagradável, cerca de 80% da população está endividada, e, de forma geral, o brasileiro recebe muitos estímulos para gastar e apostar e poucos para poupar […] Conhecer mais sobre educação financeira poderia ajudar a reverter esse quadro”, declara.
O professor cita, por exemplo, que programas como o Desenrola, criado pelo Governo Federal, teriam resultados mais sólidos se fossem acompanhados por iniciativas de conscientização da população acerca da importância de manter as finanças pessoais equilibradas.
Brasileiros demonstram interesse em investimentos
Apesar dos dados revelados pelo estudo da ABEFIN, um outro levantamento, feito pelo Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, mostra que 76% das pessoas gostariam de conhecer mais sobre investimentos e 41% declararam que investiriam mais caso tivessem acesso a conteúdos acessíveis e práticos relacionados à educação financeira.
“Esse dado revela que o brasileiro já passou da negação e reconhece as lacunas e suas consequências na vida cotidiana. Esse reconhecimento cria uma janela de receptividade que, se bem aproveitada por instituições, escolas e pela mídia, pode acelerar transformações que levariam décadas em condições normais”, afirma Carol Strange.
“A ressalva é que desejo não vira mudança automaticamente. Esse caminho passa por acesso a conteúdo de qualidade, por repetição e por aplicação prática, e não por uma palestra ou um artigo isolado. A educação financeira eficaz é aquela que conecta conceitos às decisões cotidianas: como usar o cartão de crédito, como montar uma reserva, como pensar em aposentadoria com 25 anos. Algo simples, mas ainda ausente da realidade da maioria”, completa.
Ao menos 43% dos entrevistados no levantamento do Serasa/Instituto Opinion Box afirmam que viram sua situação econômica melhorar após começarem a investir. Contudo, uma parcela similar, de 40%, revela que precisaram recorrer às aplicações para pagar dívidas.
“Nos últimos anos, o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país tem limitado as oportunidades de desenvolvimento profissional. Embora a taxa de desemprego esteja em queda, uma retomada do crescimento econômico ampliaria as perspectivas para a população. Nesse contexto, a educação segue sendo o melhor investimento, tanto para o desenvolvimento econômico do país quanto para o crescimento pessoal”, avalia o professor Bolívar Godinho.