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Small Caps depois das oscilações: entenda o cenário e as perspectivas

Analistas acreditam ter Small Caps baratas no mercado, mas alertam para análise individual

As small caps viveram uma montanha-russa em outubro. Entre 2 e 23 de outubro, no intervalo entre os dois turnos das eleições, o índice Small Cap (SMLL) subiu 18,52%. Mas essa valorização teve uma reviravolta. Em 26 de outubro, primeiro pregão após a reeleição de Lula, o índice despencou 26,92%. Já no acumulado de 2026 até o dia 04 de novembro, as small caps apresentam retorno negativo de 16,53%, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria.  

Para Carlos Herrera, analista-chefe da Condor Insider, o problema não foi o resultado em si, mas o caminho até ele. Depois da surpresa do primeiro turno, as ações de small caps passaram a precificar uma mudança de cenário em que Bolsonaro venceria. “O mercado ficou com FOMO no cenário Flávio e depois não chegou a precificar bem o risco de perda. O que o mercado teme não é tanto o resultado de uma eleição, mas a volatilidade até chegar lá. E essa volatilidade foi muito alta e aconteceu duas vezes”, explica.  

Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, lembra que as small caps são mais expostas à economia doméstica, têm menor liquidez e são mais sensíveis ao custo do capital. “Não foi apenas uma reação política, mas uma reprecificação acelerada do risco Brasil, intensificada pelo comportamento dos investidores”, pontua. 

No dia 26 de outubro, após a eleição, as maiores quedas do índice de small caps foram de Simpar (SIMH3), com recuo de 64,86%, Quero-Quero (LJQQ3), que caiu 63,93%, Ecorodovias (ECOR3), com baixa de 60,53%. Já Movida (MOVI3) e Magazine Luiza (MGLU3) recuaram 58,49% e 58,23%, respectivamente. Os dados são da Elos Ayta Consultoria.  

Recuperação deve demorar 

A visão de boa parte dos analistas é que não teremos uma recuperação das small caps no curto prazo. Para Artur Horta, head de análise da GTF Capital, muitos investidores e fundos estrangeiros entraram na bolsa para se posicionar em um cenário de Flávio eleito e tiveram as expectativas frustradas. “Devemos ver uma onda de resgates de fundos, desmonte de posições em small caps. Esse processo leva dias, até semanas, porque muitos fundos têm prazo de resgate de 30 dias”, avalia.  

A retomada, segundo Horta, fica para médio e longo prazo, principalmente para empresas sem dívida. “As mais endividadas devem cair mais”, observa.  

Outros analistas enxergam espaço para recuperações pontuais, mas avaliam que uma alta sustentável estaria interligada a queda dos juros futuros, melhora das expectativas fiscais e retomada do crédito.  

Horta acrescenta que grandes bancos estão rebaixando recomendações para small caps e que os relatórios econômicos já apontam Selic mais alta e inflação fora da meta até 2028. Para Murad, mais do que o resultado eleitoral, o mercado estará atento às decisões econômicas tomadas daqui para frente. 

Na visão de Hugo Queiroz, gestor da Soho Capital, nos últimos dias ocorreu um repique por conta de percepção de risco global, com as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que trouxeram alívio em termos de inflação, favorecendo países emergentes e puxando índices até de small caps.  

Mas destaca que enquanto o Brasil viver incerteza fiscal e política, as small caps continuaram pressionadas.  

Barato não é sinônimo de bom 

Questionados pelo Bora Investir sobre o fato das small caps estarem baratas, a maioria dos analistas concorda.  

Queiroz é o mais otimista e destaca que as small caps estão muito baratas atualmente. Na visão dele, os ativos brasileiros como um todo estão muito descontados, por conta de um risco mais elevado e fundamentos mais fracos. Ele sugere ter entre 3 a 5 small caps na carteira, que representam entre 15% e 20% do portfólio do investidor.  

Herrera também enxerga preços atrativos. Segundo ele, muitas empresas já estavam baratas na crise dos anos 2015 e 2016, mas evoluíram em governança, dívida e comunicação com o mercado.  “São empresas mais sólidas, com modelos de negócios mais caros do que na última crise e que podem estar negociando em múltiplos semelhantes a crise anterior”, avalia.  

Murad aconselha o investidor a ter cautela e diferenciar preço de valor. Ele destaca que uma ação que saiu 40% não está necessariamente barata se sua capacidade de lucros também se deteriorou.  “O investidor deve procurar empresas com endividamento controlado, geração consistente de caixa, boa governança e capacidade de crescimento, mesmo em um ambiente econômico adverso”, recomenda.  

Mesmo com a queda após as eleições, algumas small caps seguem no azul em 2026, revela o estudo da Elos Ayta. As maiores altas do ano são de CBA (CBAV3), com valorização de 57,76%, Fleury (FLRY3), com 41,11%, São Martinho (SMTO3), com 38,84%, JHSF (JHSF3), com 29,79%, e Intelbras (INTB3), com 26,13%.  

Na outra ponta, as maiores perdas são de Hapvida (HAPV3), com 72,37%, Plano & Plano (PLPL3), com 66,86%, CVC (CVCB3), com 62,5%, Grupo SBF (SBFG3), com 59,53%, e Pague Menos (PGMN3), com 58,29%.  

Oportunidades nas Small Caps

Horta aponta setores não cíclicos ou com receita recorrente, tais como tecnologia, educação, agronegócio pouco alavancado, o segmento de construção voltado ao Minha Casa Minha Vida e supermercados. Ele aconselha o investidor evitar locadoras de veículos, construtoras de média e alta renda, saúde, consumo e varejo de moda. 

Já Murad enxerga oportunidades nos segmentos de infraestrutura, saneamento, energia e serviços essenciais, principalmente em empresas com receitas previsíveis, boa geração de caixa e menor dependência de financiamento.  

“Construção civil, varejo e consumo discricionário podem apresentar recuperações expressivas caso os juros comecem a cair, mas também carregam riscos maiores enquanto o crédito permanecer caro”, afirma.  

Como escolher entre as small caps

Os analistas consultados pelo Bora Investir citam três filtros. O primeiro é receita crescendo pelo menos 5% a 6% ao ano. Alavancagem (patamar de endividamento) de até 1 vez dívida líquida sobre Ebitda. No máximo 1,5 vez.  

E o ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido) e ROIC (Retorno sobre Capital Investido) acima da Selic, de preferência perto de 16%. 

Os analistas também lembram que as small caps costumam cair mais rápido do que outras ações e demoram mais em se recuperar. Desta forma, vale buscar papéis que não dependam tanto do ciclo econômico. Entre os fundamentos a serem observados, eles destacam capacidade de geração de caixa, alavancagem financeira, custo de dívida, modelo de negócios, governança e valuation (avaliação da empresa). 

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