FIDCs ganham espaço, ampliam acesso de empresas ao crédito e aumentam oportunidades para investidores
Em painel na Expert XP, gestores afirmaram que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ganharam protagonismo com a desintermediação bancária e destacaram os cuidados para investir na classe
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) deixaram de ser um nicho do mercado de crédito para se consolidar como uma importante fonte de financiamento para empresas, e parte da carteira dos investidores. O avanço da indústria foi tema de um painel na Expert XP, que reuniu gestores para discutir como a desintermediação bancária, as mudanças regulatórias e a busca dos investidores por novas alternativas de retorno impulsionaram o crescimento da classe.
Segundo os especialistas, esse movimento tende a continuar nos próximos anos, à medida que empresas passam a recorrer cada vez mais ao mercado de capitais para captar recursos.
Por que os FIDCs cresceram tanto?
Para Delano Macedo, sócio-fundador e diretor de crédito da Solis Investimentos, o crescimento dos FIDCs está diretamente ligado às mudanças no sistema bancário.
Segundo ele, no ano passado o volume captado pelo mercado de capitais, considerando instrumentos como CRIs, CRAs e FIDCs, já superou o crédito bancário. Parte dessa mudança decorre das exigências regulatórias, como as regras de Basileia e de provisionamento, que aumentaram o consumo de capital dos bancos e reduziram sua atuação em determinados segmentos.
“Os bancos têm saído de alguns mercados, como recebíveis e até crédito consignado. Isso tem migrado para o mercado de capitais, especialmente por meio da estrutura de FIDC”, afirmou.
Na avaliação de Macedo, uma das principais vantagens desse tipo de fundo é sua flexibilidade.
“Praticamente tudo é ‘FIDCável’”, resumiu. Segundo ele, a estrutura permite financiar diferentes tipos de ativos e atende nichos que, embora tenham menor volume de operações, nem por isso apresentam maior risco.
Estrutura ajuda a enfrentar diferentes cenários
Os gestores destacaram que a indústria de FIDCs já atravessou momentos bastante distintos da economia brasileira — de impeachment à pandemia, passando por juros de 2% ao ano e pelo atual ciclo de juros elevados.
Para Gustavo Cortes, sócio e gestor de Private Credit da Vinci Compass, essa trajetória mostrou a capacidade de adaptação da classe. Um dos diferenciais, segundo ele, é a possibilidade de estruturar diferentes tranches dentro do fundo, permitindo que investidores escolham níveis distintos de risco e retorno.
Bruno Spilberg, gestor de crédito da SPX Capital, afirmou que, embora muitos investidores questionem se ainda há espaço para crescimento da indústria, o ambiente desafiador faz parte da realidade do crédito há vários anos.
Na visão dele, a própria estrutura dos FIDCs ajuda a absorver eventuais problemas, enquanto a diversificação continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir riscos.
Crescimento exige disciplina na concessão de crédito
Apesar do forte crescimento da indústria, os especialistas ressaltaram que o sucesso de uma gestora depende menos da velocidade de expansão e mais da qualidade da carteira. “Uma gestora de crédito de sucesso não é a que cresce rápido; é a que cresce bem”, afirmou Delano Macedo.
Segundo ele, a confiança dos investidores foi construída porque os FIDCs demonstraram resiliência em períodos de estresse no mercado de crédito. Além disso, destacou a importância de estruturas bem desenhadas, capazes de agir rapidamente diante de problemas, e da capacidade de recuperação dos créditos (recovery).
Bruno Spilberg acrescentou que o maior desafio da indústria continua sendo a originação das operações. “Se você origina uma operação ruim, ela vai ser ruim durante toda a vida dela”, afirmou.
Por isso, segundo ele, é fundamental ter um fluxo relevante de oportunidades para poder selecionar apenas os melhores ativos. Em um ambiente de spreads menores, a disciplina para dizer “não” a determinadas operações torna-se ainda mais importante, assim como a inovação para encontrar novas oportunidades de investimento.
Spilberg disse ainda que o crescimento da indústria de FIDCs “veio para ficar”, mesmo após o patrimônio do setor atingir cerca de R$ 800 bilhões.
Segundo ele, os próprios bancos passaram a utilizar FIDCs, enquanto empresas enxergam nesses fundos uma alternativa mais eficiente ao capital de giro tradicional. Ao mesmo tempo, os investidores passaram a incorporar os FIDCs às carteiras por oferecerem uma combinação considerada atrativa entre retorno e risco, reforçando a expectativa de que a classe continue ganhando espaço no mercado de capitais brasileiro.