BDRs
Einar Rivero: BDRs ganham tração na B3 e reforçam papel da diversificação internacional
Einar Rivero
Einar Rivero é engenheiro e especialista em dados financeiros, com carreira dedicada à análise de informações econômicas e à geração de insights estratégicos para o mercado. Ao longo de mais de duas décadas, atuou em posições de liderança em grandes plataformas de dados, consolidando-se como referência em estudos e levantamentos sobre o mercado financeiro brasileiro, América Latina e EUA.
Enquanto o mercado acionário brasileiro atravessou um dos meses mais desafiadores dos últimos anos, os recibos de ações estrangeiras negociados na B3 seguiram uma trajetória oposta. Em maio de 2026, o índice BDRx avançou 9,22%, registrando seu melhor desempenho mensal desde junho de 2024, quando havia subido 12,79%.
O contraste chama atenção porque ocorreu justamente em um período de forte correção da bolsa brasileira. No mesmo mês, o Ibovespa acumulou queda de 7,22%, refletindo um ambiente de maior cautela dos investidores em relação aos ativos domésticos. A diferença de comportamento entre os dois indicadores reforça uma característica cada vez mais evidente do mercado brasileiro: o avanço da internacionalização das carteiras por meio dos BDRs.
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Uma análise histórica, elaborada pela Elos Ayta, mostra que o resultado de maio de 2026 está entre os mais relevantes já registrados pelo índice de BDRs. Desde janeiro de 2020, apenas quatro meses apresentaram desempenho superior: abril de 2020, agosto de 2020, outubro de 2021 e junho de 2024. Assim, maio de 2026 passa a ocupar a quinta posição entre os melhores retornos mensais do período.

O desempenho de abril de 2020 permanece como um marco na série histórica. Naquele momento, os mercados globais reagiam ao forte choque provocado pela pandemia e iniciavam uma recuperação após os fundos atingidos em março daquele ano. Desde então, o índice de BDRs acompanhou diferentes ciclos da economia mundial, atravessando períodos de inflação elevada, aumento de juros, tensões geopolíticas e a ascensão de empresas ligadas à inteligência artificial, tecnologia e infraestrutura digital.
Mais do que a rentabilidade recente, os números revelam uma transformação estrutural do mercado de BDRs no Brasil. Em poucos anos, o segmento deixou de ser um nicho voltado a investidores mais sofisticados para se tornar uma das principais portas de acesso ao mercado internacional.
Essa evolução aparece de forma clara nos dados de liquidez. Em 2020, o volume financeiro médio diário negociado em BDRs era de R$ 104 milhões. Em 2026, considerando os dados até o final de maio, essa média alcançou R$ 1,03 bilhão por dia. Na prática, o mercado multiplicou seu tamanho por quase dez vezes em apenas seis anos.

O crescimento da liquidez é um dos principais indicadores de amadurecimento de qualquer mercado. Quanto maior o volume negociado, maior tende a ser a eficiência na formação de preços e menor o custo implícito para investidores que desejam comprar ou vender ativos. No caso dos BDRs, esse avanço ocorreu em paralelo à ampliação da oferta de papéis e ao aumento do interesse dos investidores brasileiros por empresas globais.
Atualmente, 885 BDRs estão listados para negociação na B3. Deste total, 707 registraram pelo menos um negócio durante maio de 2026. O dado ganha ainda mais relevância quando observado em perspectiva: há nove meses consecutivos o número de BDRs negociados mensalmente permanece acima de 700, demonstrando que o crescimento não está concentrado apenas em um pequeno grupo de ativos mais conhecidos.
Outro indicador que evidencia o amadurecimento desse mercado é a frequência de negociação. Em 2020, apenas 105 BDRs apresentavam presença em pelo menos metade dos pregões do ano. Em 2026, esse número saltou para 395 ativos. Isso significa que uma parcela cada vez maior dos recibos listados possui liquidez recorrente, ampliando as possibilidades de acesso dos investidores a diferentes setores, regiões e modelos de negócio.
Esse movimento acompanha uma tendência observada em diversos mercados desenvolvidos. A diversificação geográfica passou a ser vista não apenas como uma alternativa, mas como uma ferramenta importante para reduzir a concentração de riscos associada a uma única economia. Em um cenário de crescente integração financeira global, investidores têm buscado exposição a empresas que atuam em setores muitas vezes pouco representados na bolsa brasileira, como tecnologia, semicondutores, computação em nuvem, biotecnologia e consumo digital.
A expansão do universo de BDRs também permitiu que investidores locais acompanhassem de forma mais próxima as transformações da economia mundial. Ao longo dos últimos anos, temas como inteligência artificial, digitalização, transição energética, saúde avançada e infraestrutura tecnológica passaram a ter peso crescente nos mercados internacionais, ampliando o interesse pelos recibos negociados na B3.
Os números de maio de 2026 ajudam a ilustrar essa dinâmica. Entre os 13 índices de investimentos acompanhados pela Elos Ayta, o BDRx apresentou o melhor desempenho do mês, superando classes de ativos tradicionais e consolidando um período de forte valorização dos mercados internacionais.
Mais importante do que um resultado isolado, porém, é a mudança estrutural que os dados revelam. O crescimento expressivo da liquidez, o aumento da quantidade de ativos negociados regularmente e a expansão do universo de empresas acessíveis aos investidores brasileiros mostram que os BDRs deixaram de ocupar uma posição periférica no mercado de capitais nacional.
Se em 2020 o segmento ainda dava seus primeiros passos em direção à popularização, em 2026 ele já se consolidou como uma das principais pontes entre o investidor brasileiro e a economia global. E os números recentes indicam que esse processo de expansão continua em curso, sustentado por uma combinação de maior acesso, maior liquidez e crescente integração entre os mercados financeiros do Brasil e do exterior.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3