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ETFs são opções em tempos de incerteza, diz Carlos Takahashi, chairman da BlackRock

Ao Bora Investir, chairman da BlackRock Brasil aponta como os fundos de índice podem ajudar o investidor agora e dá sua visão sobre novas regulações, como os ETFs que pagam dividendos

Carlos Takahashi, chairman da BlackRock Brasil. Foto: BlackRock/ Divulgação
Carlos Takahashi, chairman da BlackRock Brasil. Foto: BlackRock/ Divulgação

Por Marília Almeida

Momentos de alta volatilidade, como o atual, favorecem o desempenho de investimentos que apostam na diversificação, a exemplo da indústria de fundos passivos, os ETFs. No ano passado, a maioria dos fundos de renda variável com gestão ativa no Brasil teve um desempenho inferior ao seu índice de referência.

Não por acaso o momento no qual os ETFs mais cresceram no país foi entre 2019 e 2020, com a eclosão da pandemia. O número de investidores no período cresceu 56%, enquanto o patrimônio da indústria avançou 20%. Atualmente, mais de 500 mil pequenos investidores aplicam nos ETFs, e o patrimônio da indústria atingiu R$ 39 bilhões no país.

“Quando não há muita clareza para fazer stock picking, mas o investidor quer estar exposto ao mercado de renda variável, o ETF é uma opção bastante interessante”, diz Carlos Takahashi, chairman da BlackRock.

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Além do cenário econômico, a regulação também colaborou para o crescimento dos ETFs. Em 2020 uma norma da CVM permitiu que pequenos investidores acessem os Brazilian Depositary Receipts (BDRs), que nada mais são do que a listagem nacional de um ativo internacional. Desde então, a BlackRock já listou 140 BDRs de ETFs na bolsa de valores.

E a sofisticação dos produtos não para de evoluir. Recentemente a gestora lançou uma nova família de ETFs multiativos. Ele é quase uma carteira de investimentos pré-montada, pois inclui índices de renda fixa e renda variável e é possível escolher o ETF conforme o seu perfil de risco: são quatro opções, desde o conservador até o arrojado.

Ao Bora Investir, Cacá, como é conhecido no mercado financeiro, fala sobre as perspectivas para ETFs que paguem dividendos, macroeconomia e o novo marco dos fundos de investimento. Acompanhe!

Bora Investir – Vivemos um período de incertezas, com inflação e juros altos no mundo. Nestes momentos parece que os ETFs caminham melhor.

De fato, estamos vivendo um momento de bastante volatilidade. Esse contexto de inflação e taxas de juros elevadas é um fenômeno global e diferente de outras situações que tivemos no mercado.

Na pandemia houve uma desorganização da cadeia de suprimentos e agora há a necessidade de organizá-la novamente. Isso traz implicações em diversos aspectos.

Em momentos de volatilidade é necessário ter um portfólio eficiente, com o qual você consiga se movimentar taticamente. Essa carteira deve resguardar um atributo muito importante neste momento, que é a liquidez.

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Os ETFs se encaixam neste momento, no qual você precisa de eficiência, liquidez e transparência de taxas. Em um contexto de volatilidade você precisa pensar no custo do seu investimento, que passa a ser uma variável importante. E o ETF é um produto de baixo custo.

Quando não há muita clareza para fazer stock picking, mas o investidor quer estar exposto ao mercado de renda variável, o ETF é uma opção bastante interessante.

De lá para cá a disseminação da educação financeira evoluiu muito no país, bem como o mercado financeiro e a regulação. Isso tem ajudado na consolidação da aplicação.

Bora Investir – O número de investidores de ETFs vem crescendo, mas o de fundos imobiliários já é bem maior, e estão há menos tempo de mercado. A possibilidade de ETFs que paguem dividendos pode ser uma virada de chave?

Um aspecto que ajudou muito na evolução dos ETFs foram os BDRs de ETFs, que dão a possibilidade de trazer ETFs globais para cá. A regulação mudou de 2019 para 2020 e ajudou muito no acesso das pessoas físicas.

Estou ligando as duas coisas porque falar em tributação nos leva para o campo da regulação. Sabemos que muitos avanços dependem de um arcabouço regulatório e tributário que sejam compatíveis como forma de incentivar o crescimento do mercado de forma saudável, sem que haja assimetria entre ativos tanto em termos de condições quanto de tributação. Sempre cabe à indústria vencer estes obstáculos.

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Não atribuo o avanço dos FIIs a uma questão apenas tributária: as características do ativo em si também influenciam. Claro que a questão tributária influencia, mas o crescimento dos ETFs segue relacionado ao crescimento da educação financeira e uma compreensão cada vez melhor dos atributos do produto.

A tributação de um ETF é relativamente simples, o que é um outro aspecto que é interessante principalmente quando você acessa o mercado global. Os BDRs de ETFs permitem acessar integralmente os mercados globais de forma local, sem ter de se preocupar com questões tributárias e também com ajustes na declaração do Imposto de Renda. Você faz tudo como se fosse um ativo local.

Tudo isso faz parte dos avanços da indústria e do processo de democratização. O grande ponto é permitir o acesso ao maior número de alternativas de investimento da melhor forma possível e com todas as informações sendo prestadas da forma mais transparente para o investidor.

Bora Investir – Há algo que esteja travando o lançamento do produto por aqui? Imagino que ele seja comum lá fora.

Nós temos produtos de rendimento lá fora e os BDRs facilitam a vinda desse produto para cá. Temos olhado muito tendências de mercado e vemos indicativos de que poderia ser uma complementação importante de portfólio do investidor brasileiro.

Diversificação é isso: tentar preencher gaps por meio de diversas alternativas. Como tem por aqui alternativas que suprem algumas necessidades nós tentamos trazer o que vai complementar o portfólio do investidor. Nenhum produto substitui o outro.

Há, sim, uma questão tributária para trazer o ETF de dividendos. Contudo, há a possibilidade de termos uma reforma tributária que irá incluir serviços financeiros. Portanto, eventuais conversas paralelas acabam perdendo prioridade em função dessa discussão mais ampla.

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Não diria que é uma convicção de que a reforma tributária pode incluir a tributação de dividendos. Contudo, eventualmente você pode encaminhar as questões de um jeito e, posteriormente, caso a reforma seja aprovada, um novo modelo pode fazer com que esta discussão fique sem sentido.

A indústria está tomando cuidado nestas discussões paralelas por conta da reforma tributária. Não sabemos com qual velocidade ela será aprovada, mas tomamos o cuidado para que, se eventualmente ela acontecer, não torne inexequível a regulação dos ETFs que paguem proventos. É esse o cuidado, além de não formar assimetrias no mercado entre produtos.

Bora Investir – Negociações de BDRs de renda fixa estão disparando. Qual é a leitura do momento para os BDRs de ETFs?

Hoje, em função do cenário macroeconômico, há um pouco menos de diversificação internacional, e os BDRs estão relacionados a ela. Por isso, buscamos trazer opções de produtos que sejam mais adequados ao cenário. Já temos BDRs de ETFs de renda fixa, temáticos e de commodities.

Hoje há uma concentração de investimentos na renda fixa global, especialmente no mercado americano, que traz benefícios. Contudo, essas questões são pendulares.

Acreditamos que no momento em que os juros caírem e a inflação estiver mais controlada todo o processo diversificação global que vinha acontecendo seja retomado, e portfólios fiquem mais diversificados.

Bora Investir – Os BDRs são importantes porque facilitam a listagem de produtos mais diversos e sofisticados que existem em mercados como o americano?

O Brasil tem uma agenda ESG, mas lá fora, tanto por questão de investidores, regulação e papéis, esse tema é mais desenvolvido. Nós temos uma agenda forte, mas nosso contexto regulatório é diferente e a demanda dos investidores pelo tema é menor.

Como temos ETFs sobre o tema lá fora, disponibilizamos para o brasileiro caso ele queira ter exposição ao tema da sustentabilidade. E isso pode acontecer com os mais diversos temas.

Bora Investir – Sobre o cenário macroeconômico no Brasil e no exterior, qual é a sua visão? Ele exige um cuidado extra ao investir?

A grande discussão agora é sobre um mundo com inflação e juros mais altos e os efeitos que levaram a isso. É bom pontuar que não apenas do Brasil, mas todos os países estão convivendo com taxa de juros elevadas para combater a inflação e trazê-la para patamares aceitáveis.

Isso tudo precisa ser feito com cuidado e consistência porque sabemos o impacto que uma inflação não corretamente combatida pode ter em uma economia. Este é hoje o maior desafio que temos pelo mundo.

Há ainda um rearranjo importante da cadeia de suprimentos. Além disso, o perfil de empregos vem mudando. Tudo isso tem impacto direto nos custos e na inflação.

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Existem oportunidades, mas o investidor precisa ter uma cautela maior com o risco e também com a volatilidade. Lembrando que são coisas diferentes: a volatilidade é a oscilação do preço dos ativos, enquanto o risco é uma questão mais abrangente.

Há oportunidades na renda fixa local e internacional e também na renda variável, pois os preços dos ativos se desvalorizaram muito. Mas é mais do que necessário que o investidor saiba o que pode deixar investido por um prazo maior. Alocações estratégicas no longo prazo são fundamentais, mas exposições táticas em prazos mais curtos também podem ser interessantes.

Bora Investir – Qual é a sua visão sobre o novo marco dos fundos, a Resolução CVM 175?

A nova regulação é muito boa, pois traz uma aderência muito maior a mercados globais. Para uma casa como a nossa isso é muito importante.

Ao longo de sua história o mercado financeiro brasileiro acabou criando um monte de jabuticabas. A Resolução CVM 175 foi inspirada na Lei de Liberdade Econômica, que não trata só sobre mercado financeiro e trouxe avanços importantes.

Proporcionar uma maior aderência aos mercados globais beneficia dois fluxos: não apenas o de trazer opções de investimentos offshore para cá, mas também permite trazer investidores estrangeiros para cá, que é outro fluxo importante.

Em um cenário de juros elevados sempre há o olhar sobre o risco e retorno. Como economias desenvolvidas estão com juros elevados o cenário atual acaba sendo peculiar. Mas se olharmos as agendas que temos em áreas como infraestrutura e sustentabilidade, existem, sim, oportunidades para atrair investidores.

Bora Investir – Qual é a sua visão sobre a MP que tributa investimentos no exterior?

A MP ainda precisa passar pelo Congresso e por uma série de trâmites. Ela traz desafios, mas também reforça para o investidor de que é possível alcançar resultados globais por meio de soluções locais, como os BDRs de ETFs.

Se o investidor quer acessar o mercado global, ele tem opção com custos em reais e nas quais consegue utilizar sua conta no banco, além de consultor que já conhece.

Contudo, se tem outra perspectiva, continuará a ter o mercado disponível lá fora. Ele precisará estudar cada uma das opções, verificar se o que está buscando é compatível com o seu perfil de risco e fazer contas.

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