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Varejo: como o caso Americanas interfere na perspectiva do setor para 2023

Crise pode gerar desconfiança no setor de varejo, mas empresas podem se aproveitar de realocação de recurso

Lojas Americanas. Foto: Adobe Stock
Crise contábil fizeram as ações caírem mais de 80% desde a revelação das inconsistências. Foto: Adobe Stock

Por João Paulo dos Santos

A crise que atingiu a Americanas (AMER3) vem mexendo com o mercado de ações desde a última quarta-feira, 11, quando a empresa reportou ‘inconsistências contábeis’ na ordem de R$ 20 bilhões nos balanços de 2022 e de anos anteriores. Fato esse, que levou à renúncia do então presidente, Sergio Rial e do diretor financeiro da empresa, André Covre.

Nesta quinta-feira, 19, a companhia entrou com pedido de recuperação judicial (entenda o que é aqui). A medida é um recurso que suspende o pagamento de dívidas durante um período por parte de uma empresa, desse modo evita-se a falência e o não pagamento definitivo a credores.

As inconsistências encontradas significam que a empresa percebeu que não registrou esse valor de forma correta nos balanços corporativos, levando a uma crise nas ações que fizeram estas caírem mais de 80% desde então. Porém, a revelação não afetou apenas a companhia, mas diversos setores, principalmente o seu, de varejo.

Para o analista de investimentos Lucas Serra, e o especialista em investimentos Gabriel Costa, da Toro, o caso das Americanas é visto como uma quebra de confiança para o investidor e agentes do mercado. “O ocorrido coloca em xeque a transparência das companhias do setor e os processos de auditoria das contas das empresas”, comentam. 

O setor de varejo necessita de grandes volumes de financiamento para execução das operações e a quebra de confiança gerada pode impor dificuldades ao acesso ao capital para as companhias do setor. Além disso, espera-se que, a partir de agora, os processos de controle e diligência das empresas se intensifiquem. 

+ 6 principais fatos para entender a crise da Americanas

Segundo José Simão, sócio da Legend Investimentos, a situação de perda de confiança, agrava ainda mais um setor que já estava sofrendo bastante, principalmente por conta da inflação nos últimos anos ter avançado e os juros consecutivamente ter subido, fazendo com que as margens de lucro dessas empresas diminuíssem.

Efeito Americanas no setor de varejo

Além da desconfiança gerada para o segmento, a crise da Americanas traz mais um impacto imediato nas ações das companhias que atuam juntas, que é a redistribuição do market share em prol das outras varejistas. O que isso quer dizer?

Com a massiva venda de ações da companhia, os investidores buscam outras formas de se exporem ao setor e avaliam as empresas que conseguem vantagem no setor.

“Vimos, por exemplo, os BDRs do Mercado Livre (MELI34) em forte movimento de alta no dia do ocorrido. No cenário local, a Magazine Luiza e Via também buscaram negar rapidamente as alegações feitas pelo ex-CEO das Americanas, Sérgio Rial, de que outras companhias do varejo poderiam estar com problemas contábeis similares”, explicam os especialistas da Toro Investimentos.

Dessa forma, isso dá credibilidade para essas empresas e reforça o movimento comprador nos papéis, para as pessoas que acreditam no potencial do setor no Brasil. Os investidores também buscam se expor às empresas que podem capturar clientes advindos da Americanas, frente às dificuldades que a empresa deve enfrentar.

O sócio da Legend concorda com o mesmo impacto e movimento dos investidores do setor.

“O mercado saiu vendendo as ações, porque gostaria de ter uma confirmação das empresas se o processo de contabilidade estava sendo igual, ou se era diferente. Então foi meio que o movimento de manada de aversão ao risco. A partir do momento que começa a ver que não existe qualquer irregularidade no balanço, automaticamente esse investidor começa a voltar buscando realocação no setor de varejo para equilibrar seu portfólio”.

+ A importância da diversificação de investimentos em cenários de risco local

Perspectiva para o setor de varejo em 2023

Para todos os especialistas, a inflação pode ser um problema para o setor de varejo em 2023, já que como citado, a área precisa de grandes valores para operações e funcionamentos, e a alta dos preços podem corroer o poder de compra da população.

Assim, José Simão afirma que o investidor deve estar atento não somente às ações que caíram bastante e achar que está barato, mas ver quais são as razões dos papéis ficarem nesses valores. Ou seja, devem considerar uma análise fundamentalista na hora de avaliar uma empresa.

“Acho que importante estar atento às questões de macroeconomia, como essa questão do arcabouço fiscal e também ser mais frio na análise do balanço dessas empresas, vendo se essas empresas estão desempenhando um bom papel, entregando bons resultados como um todo. Isso vai fazer com que você tome uma decisão mais assertiva”, afirma ele.

Para Lucas e Gabriel da Toro, em 2023, será preciso manter no radar os níveis de inflação e de taxa de juros que podem ditar o aquecimento do varejo local. Também pode influenciar o setor de varejo caso o atual governo adote políticas mais favoráveis à disponibilização de recursos à população, “já que é possível que parte destes sejam destinados ao consumo, o que pode favorecer as varejistas”, dizem.

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