ESG

Questões climáticas: pontos positivos e negativos para a economia do Brasil

Coordenadora de sustentabilidade da B3 destaca desafios, riscos e oportunidades que o tema pode trazer para o país

Mercado e clima. Foto: Adobe Stock
De acordo com o relatório do IPCC se as emissões de gás de efeito estufa continuarem em alta, a renda média no Brasil pode cair em 83% até o final do século. Foto: Adobe Stock

Por João Paulo dos Santos

Em meio ao acontecimento da COP 27, conferência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU), no Egito, as discussões sobre as questões climáticas se tornaram pauta no dia a dia. Porém, se engana quem pensa que o tema se fecha apenas em relação às questões ambientais.

As questões climáticas trazem desafios para todas as dimensões ESG (sigla em inglês para discussão de temas ambientais, sociais e de governança). Segundo a coordenadora de sustentabilidade da B3, Jéssica Rosani, a crise climática tem sido apontada como principal risco para a economia global. No Brasil esse risco é ainda mais alarmante.

De acordo com o relatório do IPCC, que é o painel intergovernamental de mudança do clima da ONU, se as emissões de gás de efeito estufa continuarem em alta, a renda média no Brasil pode cair em 83% até o final do século. “É muito além da renda média global, que deve diminuir em torno de 23% no mesmo período, segundo também o IPCC”, destaca Jéssica.

Contudo, não só de contenção de riscos vive o debate do tema, já que segundo estudo da McKinsey & Company, o Brasil tem potencial de responder por até 15% da oferta mundial de créditos de carbono voluntários por meio de soluções naturais, seja de captura, como o reflorestamento, e/ou abatimento de gases do efeito estufa — com a conservação de florestas ameaçadas e intensificação de práticas conservacionistas em grandes culturas como soja, milho e cana de açúcar.

Essa é uma oportunidade que começa a ser explorada no país e no mundo, mas que pode trazer protagonismo e geração de receita para o país na questão climática. O desenvolvimento do mercado de carbono, inclusive, é um dos temas em discussão na COP 27.

Confira a entrevista ao B3 Bora Investir de Jéssica Rosani, coordenadora de sustentabilidade da B3, sobre os principais desafios das questões climáticas para a economia do Brasil e o papel do país no assunto e na COP 27:

Como as questões climáticas podem gerar desafios para a economia?

Jéssica Rosani: Eventos climáticos extremos, como furacões e enchentes, podem deixar as pessoas numa situação muito extrema do ponto de vista da pobreza. As grandes secas também porque elas vão influenciar diretamente em colheitas, com o risco de impactar toda uma cadeia agrícola e, por consequência, também nos preços e na disponibilidade para o consumidor final de alimentos.

As mudanças climáticas acabam afetando os países mais pobres e eles não são os principais responsáveis pela crise climática. Geralmente são os países mais desenvolvidos. Além disso, quando a gente olha para grupos minoritários, como por exemplo os indígenas, pessoas pretas, pardas e também para as mulheres, a tendência é deles sofrerem ainda mais com essa injustiça social.

Quais os desafios das questões climáticas para a economia no Brasil?

Jéssica Rosani: Quando colocamos uma lupa no Brasil, além dos prejuízos que são causados diretamente por estes eventos climáticos extremos, como as chuvas fortes, inundações, secas prolongadas, a economia também já sofre com impactos do clima no agronegócio e até mesmo na geração de energia elétrica, porque a maior fonte de energia aqui do país vem de hidrelétricas.

Um dos desafios para o mercado, falando do meio empresarial, é que as companhias estejam preparadas para identificar, monitorar, reportar e inclusive compensar essas emissões. De fato, tentar diminuir as emissões e compensar só aquilo que elas não conseguem diminuir. Isso é muito importante. Além disso, interligar as questões climáticas e ambientais com as agendas comerciais, estratégicas e a transparência também é muito importante, como divulgar essas emissões e as compensações. O comprometimento com uma agenda de mudança do clima é cada vez mais observado, inclusive pelos investidores. Há um clamor para que haja essa relação das empresas com esses pactos e compromissos institucionais, como uma grande força-tarefa conjunta.

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O que é o acordo de Paris e como os países e as empresas estão fazendo para cumprir esse acordo?

Jéssica Rosani: O Acordo de Paris é um tratado entre países que foi assinado em 2015 durante a COP 21. Nessa ocasião, mais de 90 países signatários, incluindo o Brasil, se comprometeram com a redução das emissões de gases de efeito estufa, com o objetivo de evitar e reduzir os impactos no planeta. O objetivo é limitar o aquecimento global a um bem abaixo dos 2ºC ou 1,5ºC, tendo como referência os níveis pré-industriais. Conceitualmente isso é o Acordo de Paris. 

Com esse acordo, os países, inclusive aqueles que não tinham obrigações em reduzir emissões de gás de efeito estufa, precisam submeter periodicamente, de 5 em 5 anos, as suas contribuições, que são as NDCs, que significam contribuições nacionalmente determinadas, onde eles devem apresentar os planos que têm de redução de emissões, bem como ampliar a ambição a cada novo documento submetido. 

Para cumprir com tais objetivos os países têm implementado uma série de iniciativas, cada uma com aquilo que é material e que é significativo de acordo com o seu contexto para conseguir avançar no tema. E quais são as contribuições do Brasil? Nos destacamos, por exemplo, no protagonismo, em se propor fomentar a energia limpa, a redução do desmatamento e na oferta de incentivos para que a floresta fique de pé. E isso pode ocorrer também por meio de projetos de carbono para capturar CO2.

Existem outros mecanismos como destacar os créditos de descarbonização, que são carinhosamente chamados de CBIOs, atualmente negociados nas plataformas da B3. Os CBIOs correspondem a uma tonelada de CO2 equivalente evitada e eles devem ser adquiridos por distribuidores de combustíveis fósseis, de acordo com a meta anual de descarbonização determinada pela ANP, a Agência Nacional de Petróleo.

Quais as oportunidades de mercado em relação a esse movimento?

Jéssica Rosani: Quando mencionamos as oportunidades que essa questão da mudança do clima podem trazer, o Brasil tem um mega potencial para ser um dos principais fornecedores mundiais no mercado voluntário de crédito de carbono, mas precisa também desenvolver mais instrumentos financeiros sofisticados para poder ser a base desse mercado. 

Tem um estudo da McKinsey Company que aponta que o Brasil tem potencial de gerar até 15% da oferta mundial de créditos voluntários por meio de soluções naturais, sejam elas relacionadas a sequestro de carbono, por exemplo reflorestamento, sistemas agroflorestais em áreas degradadas ou então por iniciativas para evitar a emissões desses gases, como conservação de florestas ameaçadas de desmatamento.

Com isso em mente, as empresas, instituições e diversos setores no Brasil, incluindo também a B3, se uniram para lançar neste ano uma iniciativa brasileira para o mercado voluntário de carbono. O objetivo é estruturar ações chave para desenvolver esse mercado voluntário de carbono no Brasil e também contribuir com o Mercado Global de créditos de carbono de alta integridade. Entre as metas desse projeto está o de ampliar a oferta de créditos por meio de melhores processos, de certificação, verificação, desenvolvimento de instrumentos financeiros para aliar a demanda como a oferta. Eu acredito que essa iniciativa vai conseguir identificar várias oportunidades para alavancar esse mercado no país.

+COP 27: momento decisivo no combate ao aquecimento global

Como a COP pode ajudar a evoluir essas questões no Brasil em relação ao mundo?

Jéssica Rosani: A COP 27 vai discutir os rumos do acordo de Paris e também vai trazer um pouco de volta as discussões que aconteceram no âmbito da COP 26, do ano passado.

Entre o principal holofote temos o artigo 6 que fala em mecanismos de mercado para se alcançar a descarbonização, no caso o próprio mercado de carbono. Então, as definições da COP 27 vão ser fundamentais, pois elas acabam embasando essas políticas internas dos países e direciona o mercado financeiro sobre Baixo Carbono. 

A COP 27 vai focar principalmente em três grandes desafios: o primeiro é efetivamente implementar os compromissos assumidos lá no âmbito do Acordo de Paris e o segundo será dar consistência e progresso para aquilo que foi alcançado na COP 26 — como, por exemplo, as discussões sobre o aumento do financiamento para as ações climáticas e do mercado de carbono. O terceiro desafio é aprimorar a transparência na comunicação e na revisão das metas dos países. 

Quando pensamos especificamente sobre o Brasil este ano na COP 27, o país tem a segunda maior delegação da conferência, que é motivo de bastante orgulho, ou seja, estaremos muito bem representado. Tem muita gente para poder estar a par das discussões. Além disso, em caráter interno, em maio deste ano o Brasil determinou via decreto presidencial o que é um crédito de carbono, onde tem uma classificação desse crédito como um ativo.

Com isso, abrimos portas para a negociação desse ativo de maneira mais organizada, o que não acontece hoje. Essa decisão acontece após a COP 26 e a manutenção da ambição climática do Brasil assumida naquele momento. As decisões da COP 27 podem e devem reverberar dentro do mercado doméstico, além de servir para apoiar os agentes que movimentam a economia nacional a fomentar um novo mercado mais organizado, padronizado, dentro dos limites, características de um mercado mais íntegro.

Há discussões sobre outros temas ESG na COP 27?

Jéssica Rosani: O grande objetivo da COP é falar sobre mudança climática. Focar no E do ESG, mas consequentemente abordar o assunto mudança de clima traz outras temáticas que estão dentro do S e do G (social e governança). Por exemplo essa questão da injustiça climática, desse impacto que vai ter sobre os países mais pobres, sobre as minorias, o que nos leva à diversidade, equidade e inclusão, esbarrando na questão da injustiça climática. E aí outros assuntos, como por exemplo segurança alimentar, esbarram em impactos na produção agrícola.

Quando olhamos para governança, tem tudo a ver, porque precisamos da liderança e responsabilidade deles em buscar fomentar esse mercado, da transparência de divulgar as informações, tanto por meio dos governos, quanto por meio das empresas. Então, podemos correlacionar muitos outros fatores dentro do ESG que acabam se esbarrando na COP.

Para os próximos anos, o que eu imagino é que os temas principais desse novo cenário vão estar diretamente relacionados com a preservação florestal, o combate ao desmatamento e também com o desenvolvimento desse mercado de carbono íntegro. Eu entendo que são os três principais pontos que vão estar em pauta e precisamos com esse novo cenário expressar esse valor econômico que a floresta tem, mas que ela tem de pé.

Precisamos começar ou voltar a integrar a proteção com as questões de renda, de quem está ali na Amazônia, fazendo com que possa incluir e trazer para perto essa população mais vulnerável, como os ribeirinhos. Os créditos de carbono podem ser um instrumento fundamental para preservar a floresta, e podemos associar sustentabilidade a isso. 

Sustentabilidade é um tripé, onde temos um equilíbrio pautado nas dimensões ambiental, social e econômica. Então, podemos fazer com que as coisas estejam amarradas.

Porém, é preciso que esse mercado seja desenvolvido, que ele cresça e seja de alta integridade, isso é muito importante. E aí eu acho que o ministério do meio ambiente, tendo um papel muito fundamental no fomento dessas temáticas, de forma muito colada ao ministério da economia, ambos, juntos podem alavancar esse mercado de carbono e essa ambição climática do país. Esse é um mercado de bilhões de reais, então as oportunidades são gigantescas de desenvolvimento e geração de receita para o país.

Quer saber mais sobre as questões climáticas e economia? Este curso gratuito do Hub de Educação da B3 pode te ajudar >> ESG: Um novo jeito de investir.

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