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4 fatores globais que podem afetar suas finanças e investimentos em 2023

Guerra entre Rússia e Ucrânia torna o processo inflacionário ainda mais desafiador com o avanço dos preços das commodities pressionando os custos dos insumos. Saiba mais!

Visão de estruturas metálicas para transporte de gás da Rússia para a Europa
Apesar de se arrastar a um ano, a guerra russo-ucraniana não parece ter resolução à vista. Foto: AnneGret Hilse

Por Redação B3 Bora Investir

O ano de 2023 começa com uma série de questões políticas e econômicas que precisam ser resolvidas e que tem consequências diretas na nossa vida financeira. A desaceleração econômica sincronizada em todo o mundo se completa com o risco de recessão nos Estados Unidos e Europa; nas dificuldades de crescimento da China e na perda de ritmo da América Latina.

Se soma a essa lista a retomada da pior fase da pandemia, que trouxe a escalada da inflação, acompanhada do aperto monetário em todo o mundo. A guerra entre Rússia e Ucrânia torna o processo inflacionário ainda mais desafiador com o avanço dos preços das commodities pressionando os custos dos insumos.

No Brasil, o principal desafio passa por conciliar a sustentabilidade fiscal com as políticas sociais. O preço da pandemia – com o aumento da pobreza – recaí sobre um Estado sufocado por gastos e sem dinheiro para investimentos. O combate a miséria precisa vir acompanhado de uma âncora fiscal que assegure uma estabilidade para a trajetória da dívida nos próximos anos. Sem isso, os juros e o dólar vão avançar ainda mais, o que pressiona a inflação e prejudica os mais pobres.

1. Recessão Mundial e China

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem alertado em seus relatórios que, pelo menos, um terço do planeta vai entrar em recessão no ano de 2023. Segundo a instituição, mesmo os países que escaparem de uma queda da economia, vão sentir como se estivessem em uma, diante da abrangência da crise.

A desaceleração mundial vem sendo firmada à medida que dados econômicos fracos de países desenvolvidos são apoiados pela disparada da inflação que levou os bancos centrais a subirem mais os juros. (saiba mais sobre esse item abaixo). Para os analistas, se no fim de 2022, a dúvida era se haveria desaceleração, atualmente é a intensidade desse enfraquecimento que é discutida.

O economista-chefe da Valor Investimentos, Piter Carvalho, alerta para as consequências no mercado financeiro mundial diante dessa desaceleração já contratada pelo planeta.

“A gente vai ver uma década, principalmente nas economias desenvolvidas, com juros positivos e inflação alta, o que leva a uma queda nas bolsas – principalmente no setor de tecnologia. A gente está vendo, por exemplo, uma Nasdaq [bolsa de tecnologia dos Estados Unidos] que sofre bastante, principalmente porque as empresas demandam muitos empréstimos e se os juros estiverem altos, você vai ter uma limitação diferente do que teve na última década, que você pagava quase zero de juros. Então você vai ter uma limitação maior de crédito e as empresas vão crescer menos”.

Em relação aos países emergentes, o impacto de nações desenvolvidas em dificuldades contrata maus momentos para as economias mais fracas. Mesmo o Brasil – que começou a subir juros mais cedo que os outros países – os impactos fiscais trazem mais incertezas para o cenário do país.

Na China, o retorno ainda incipiente à normalidade pós-covid – com a transição da política de Covid-zero – pode ainda trazer fortes dificuldades para o crescimento da segunda maior economia do mundo. Com uma atividade mais fraca por lá, os impactos são diretos nos principais parceiros comerciais do país, como o Brasil. É o que explica o economista, Piter Carvalho.

“A China vai conseguir crescer? Vai conseguir vacinar a população contra a Covid-19 com novos imunizantes que protejam contra novas variantes? Vai resolver os problemas no setor imobiliário, de onde veio uma grande crise. Portanto, o crescimento na China deve ser baixo, talvez até igual ao Brasil, o que é ruim principalmente para nós. Porque se eles
crescem pouco, a gente deve crescer menos ainda – já que o país é nosso principal parceiro comercial. Então guerra [na Ucrânia] e China vão decidir se teremos ou não uma recessão em 2023. E se tivermos, se vai ser curta ou longa”.

2. Inflação e Juros

A retomada do período mais agudo da pandemia de Covid-19 foi acompanhada por aumento de pressões inflacionárias em todo o planeta. Segundo um relatório do Banco Mundial, para controlar a escalada dos preços, os bancos centrais de todo o mundo vão precisar subir os juros em uma média de 2 pontos porcentuais em 2023.

O aperto na política monetário nesse ritmo, prevê a instituição, deve desacelerar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do planeta a 0,5% em 2023 – o que equivale a uma contração de 0,4% per capita. Esse resultado levaria o mundo para uma recessão – como vimos acima.

O economista-chefe da Valor Investimentos alerta que para esse momento de crise, o investidor precisa estar preparado com um portfólio diversificado, além de atento também a boas oportunidades.“O importante é diversificar e ter uma parte em liquidez, até para aproveitar as boas oportunidades que devem surgir na economia. Afinal, é na crise que surgem as grandes oportunidades. Em uma recessão, de certa forma anunciada, os grandes gestores já finalizaram principalmente posições sem risco. Supomos que a China entre numa grande crise. Muitos investidores já diminuíram suas posições. Até em América Latina também. Isso impede que a gente tenha uma recessão gigante, como em 2008, por exemplo”, afirma Piter Carvalho.

3. Guerra na Ucrânia

A guerra entre Rússia e Ucrânia – que completa um ano em fevereiro – torna o cenário econômico mais desafiador. O choque nos preços das commodities agrícolas e de energia ajudou a engordar a inflação em todo o mundo. Na “guerra” da economia, de um lado temos a Ucrânia que é uma das maiores exportadoras de trigo do mundo. Do outro está a Rússia, um dos grandes produtores de gás e petróleo do planeta. A combinação economicamente explosiva se soma as fortes restrições impostas sobre a Rússia que ajudam a desacelerar uma economia mundial já em crise.

“A guerra entre a Rússia e Ucrânia ainda traz consequências para o mundo – como a alta do gás natural que afeta a Europa e causa a inflação – e até mesmo falta de energia. Vimos agora no início do inverno que eles [governo europeu] correram para comprar gás natural e o preço da energia subiu 300%. Isso gera inflação na Europa e baixo crescimento.

Assim como também as sanções para a Rússia – que impactam nos preços de grãos, fertilizantes e petróleo. A Rússia também é um dos maiores produtores de fertilizantes e o segundo maior produtor de petróleo”, explica o economista-chefe da Valor Investimentos.

4. A questão fiscal brasileira

As preocupações com as contas públicas brasileiras estão no centro das discussões em 2023. Essas incertezas trazem a desconfiança do mercado financeiro da capacidade do país de cumprir suas obrigações sem uma explosão de endividamento. A reação costuma ser de saída de dinheiro do país, desvalorização do real e pressão na inflação.

A sustentabilidade fiscal é necessária para o crescimento do país, mas, ao mesmo tempo é preciso garantir as políticas sociais em meio a alta do endividamento que atinge 79% das famílias brasileiras, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Para Piter Carvalho, não será um momento fácil para os brasileiros que pretendem poupar, comprar a casa própria ou mesmo começar a investir. Apesar disso, o mercado está aberto para todos os perfis de investidores.

“Não vai ser um tempo fácil, principalmente para começar a investir. O primeiro passo é entender o seu perfil de investidor. Depois entender os seus objetivos, se você vai usar o dinheiro ou está juntando para comprar a casa daqui a dez anos. Quem é mais conservador vai continuar aproveitando as boas taxas da renda fixa. Já os mais agressivos, vão achar uma bolsa de valores mais barata. O investidor tem que estudar bem e dar prioridade para boas empresas que passaram já por outras crises e são mais resilientes”.

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