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Favelado Investidor: diziam que eu podia ser jogador ou MC, mas não investidor

Ao B3 Convida, Murilo Duarte, sócio proprietário do canal Favelado Investidor, conta como começou a investir e conseguiu pagar uma dívida de R$ 20 mil

Murilo Duarte, criador do canal Favelado Investidor. Foto: Divulgação/B3
Murilo Duarte, criador do canal Favelado Investidor. Foto: Divulgação/B3

Por Redação B3 Bora Investir

Derrubar mitos de que apenas ricos conseguem investir, traduzir o economês para a fala da quebrada e mostrar que muitos investidores podem vir da favela. Este é o propósito de Murilo Duarte, sócio proprietário do canal Favelado Investidor.

O conteúdo do garoto nascido e criado na comunidade João XXIII, na Zona Oeste de São Paulo, já tem impacto na vida de 1 milhão de pessoas. O sucesso do canal o levou a ser reconhecido pela Forbes como uma das promessas do mercado financeiro com menos de 30 anos.

Em episódio do programa B3 Convida, Murilo Duarte conta sua trajetória e como descobriu o mundo dos investimentos e das finanças. Confira:

Como descobriu o mundo dos investimentos?

Foi em 2015, quando comecei a trabalhar em um cartório do lado da bolsa de valores. Eu saía do trabalho, olhava o prédio e pensava: será que posso me tornar um investidor? A minha referência era o que via em filmes e novelas. Portanto, acreditava que precisava de muito dinheiro para investir.

Eu ganhava R$ 680 reais e comecei a faculdade de contabilidade. Pagava a mensalidade e sobrava R$ 40 para gastar. Resolvi comprar o primeiro livro da minha vida, sobre Tesouro Direto, com este dinheiro. Eu achava que o assunto era importante porque via o apresentador da TV falar dele todo dia. Me incomodava não saber o que era aquilo e comecei a estudar.

O economês afasta as pessoas. Foi muito difícil entender vários conceitos, como o que era Selic e IPCA. Demorei três meses para entender o que era inflação e pensei que poderia ser explicada de outra maneira. Lá na comunidade quem ganhava o jogo de futebol recebia uma garrafa de Coca-Cola. Lembro que no Bar do Senhor Edi ela custava R$ 2,50 na época, e hoje custa R$ 10. A gente perde poder de compra ao longo do tempo, e gastamos mais para comprar a mesma coisa.

Quando entendi como funcionava o Tesouro Direto vi que com R$ 100 reais poderia fazer o investimento. Demorei 6 meses para conseguir juntar esse valor, e quando fiz a TED perdi R$ 10 de taxa. Fiquei com frio na barriga quando completei a operação, e a cada cinco minutos olhava a tela do celular. E isso porque era o investimento mais seguro do Brasil.

De onde vim, de baixo, ouvimos que podemos ser jogador de futebol e MC, mas investidor ninguém me disse que eu poderia ser: descobri sozinho. Agora meu propósito é fazer outros favelados se tornarem investidores também. O investimento devia ser comum na vida de todo brasileiro. Não precisa ser um grande especialista, mas saber pelo menos o básico: o que é uma reserva de emergência e como se proteger da inflação.

Sua família tinha noção de economia e finanças?

Dentro de casa graças a Deus nunca passamos fome: fui criado por minha mãe e minha avó. Mas grandes compras, como uma reforma em casa, eram feitas na base do empréstimo em nome da minha avó, que já era aposentada.

Eu pensava que único jeito de conquistar coisas era tomando empréstimo. Porque o que entrava em casa era para pagar empréstimos que havíamos feito e cartão de crédito. Comecei a trabalhar e ajudava em casa pagando parte da fatura e compras do supermercado. Mas nunca fomos acostumados a guardar dinheiro.

Mas eu guardava uma pequena parte do meu dinheiro e o restante saia gastando. Até que juntei R$ 10 mil: foi uma grande vitória. Na verdade, juntar R$ 1 mil já foi uma grande conquista. Quando consegui, pensei: se consegui isso, eu chego nos R$ 20 mil. E fui crescendo aos poucos. Sempre trabalhando a paciência, que é algo muito difícil para o brasileiro. Eu entendo que tem de haver algum sacrifício para usufruir da vida no futuro.

Você já se endividou. Como saiu dessa situação?

Me endividei em 2016, quando saí do meu emprego no cartório e comecei a trabalhar como estagiário em um banco. Meu salário aumentou de R$ 680 para R$ 2,5 mil. Falei: estou rico! Se conseguia viver com R$ 680, agora estou distribuindo dinheiro!

Eu tinha 21 anos e passava muita coisa na minha cabeça em relação a consumo. Comprei um Iphone 6, um tênis Mizuno que custava R$ 1 mil e que resolvi parcelar no cartão (que tenho até hoje), e um boné novo Juliet. Comprava no shopping e parcelava. Até que percebi que o dinheiro que entrava já era todo para pagar essa dívida. Até que ela ficou maior do que eu recebia e comecei a usar o cheque especial. Comecei a pensar que tinha R$ 4 mil porque incluia o limite do cheque especial, e não R$ 2,5 mil que era o meu salário.

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O dinheiro é emocional: quando há um grande aumento de renda não temos psicológico para lidar. Eu não pensei em ser conservador com esse dinheiro a mais, aí gerei uma dívida de R$ 5 mil, que virou R$ 20 mil. Junto com o meu sócio no Favelado, que também estava endividado, parei de gastar e sair: a única coisa que comprava era um livro por mês para estudar, pois grande parte do salário era para pagar a dívida.

Começamos então a fazer renda extra. Íamos na Rua 25 de Março e vendíamos produtos na internet. Teve mês que cada um de nós lucrou R$ 6 mil, mas grande parte disso era para quitar a dívida. Quitei em um ano. Entendi os pilares da vida financeira: organização (ter controle sobre gastos e salário) e fazer mais dinheiro.

Tem gente que chega para mim e diz que quer investir R$ 200 por mês durante 30 anos. E eu questiono: por que só isso? Coloca que esse ano será R$ 200, e ano que vem R$ 250, e assim vai. Chegou no final do ano e está com as finanças em ordem? Investe parte do dinheiro do 13º salário: abre mão da viagem para fazer no ano que vem e usufruir melhor dela.

Como você organiza a sua carteira de investimentos?

Minha carteira é focada no longo prazo. No curto prazo eu uso a minha renda. Por isso discordo que temos de abrir mão de tudo: existem fases diferentes na vida. Endividado eu abri mão de muita coisa, mas com a vida mais organizada eu posso planejar uma viagem daqui seis meses ou em um ano.

As pessoas vendem um mundo mágico na internet. A vida real não é assim. A vida real tem fase boa e ruim. Na ruim você tem de ser conservador, economizar mais e fazer mais dinheiro. Na fase boa vai a um restaurante melhor com a família e compra um videogame novo para o filho. Temos de saber identificar a fase para tomar as melhores decisões. Talvez a gente mereça, mas não pode usufruir agora. Precisa ter paciência.

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