Organizar as contas

Para o brasileiro, aparência importa mais que o dinheiro, aponta Michel Alcoforado, antropólogo autor do livro ‘Coisa de Rico’

Comportamento das pessoas com relação ao dinheiro é campo de estudo do autor

A forma como os brasileiros percebem riqueza está muito mais ligada aos símbolos de consumo e à aparência de prosperidade do que ao dinheiro em si. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pelo antropólogo Michel Alcoforado, autor do livro Coisa de Rico, durante painel realizado nesta quinta-feira (23) na Expert XP 2026

Ao discutir a relação dos brasileiros com o dinheiro, Alcoforado afirmou que a percepção de classe social no país é construída majoritariamente por elementos visíveis do estilo de vida. “Quando pensamos em percepção de classe no Brasil, ter dinheiro é só um quarto desse movimento. O resto são as coisas que dão a percepção de que as pessoas são ricas”, afirmou. 

Segundo o antropólogo, essa associação entre riqueza e consumo tem impactos diretos na economia nacional e na forma como as pessoas administram seus recursos. “A nossa percepção de riqueza está muito mais mobilizada às coisas, e isso impacta fortemente a economia brasileira, porque estamos sempre transformando o dinheiro em algo”, disse. 

Para ele, existe ainda uma tendência cultural de as pessoas buscarem viver acima de sua condição financeira real, na expectativa de ascender socialmente. 

“Outro ponto é o comportamento de que temos que viver sempre acima do que temos ou somos. Estamos sempre gerenciando nosso estilo de vida um degrau acima, porque acreditamos que vivendo assim, vamos nos tornar”, afirmou. 

Alcoforado argumentou que essa necessidade de demonstrar determinado padrão de vida influencia decisões financeiras e reduz a capacidade de formação de patrimônio ao longo do tempo. 

“Isso impacta diretamente as finanças da sociedade brasileira, porque se não performamos o estilo de vida, não fazemos os negócios. Esse é o principal problema que precisamos resolver”, disse. 

Como consequência, o especialista destacou os baixos índices de poupança e investimento observados no país. 

Consumo e gestão patrimonial 

Durante o painel, o antropólogo também abordou a importância da disciplina financeira e da existência de mecanismos de controle dos gastos dentro das famílias. Segundo ele, famílias que conseguem preservar patrimônio ao longo do tempo costumam contar com profissionais responsáveis por monitorar riscos e impor limites ao consumo. E esses profissionais têm um entendimento de quanto se pode gastar. “Ter alguém que acende o alerta do risco e questiona a necessidade dos gastos é essencial na manutenção do patrimônio”, afirmou. 

Alcoforado destacou ainda que a longevidade do patrimônio familiar depende de uma visão de continuidade entre gerações. 

“O dinheiro no Brasil costuma durar 5 gerações, e isso muda quando a família entende que precisa entregar [para a próxima geração] no mínimo a mesma quantia de patrimônio que recebeu”, disse. 

Dinheiro ainda é tabu 

Ao comentar os desafios da educação financeira no Brasil, o antropólogo afirmou que conversar sobre dinheiro ainda é um tema cercado por tabus, o que dificulta a disseminação de conhecimento sobre investimentos e planejamento patrimonial. 

Nesse contexto, ele acredita que a tecnologia terá papel relevante para ampliar o acesso à informação e tornar essas discussões mais frequentes. 

“A tecnologia vai ser uma grande aliada, e não é que o consultor vai perder seu lugar, mas determinados assuntos vão ser levados para IAs, por exemplo, e desmistificar o tabu da conversa”, concluiu. 

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