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BC alerta para política fiscal expansionista e alta de inflação no longo prazo

Em meio à críticas de Lula, ata do Copom afirma que alterações nas metas podem pressionar a inflação. Comitê também reconhece que pacote fiscal atenuaria risco de alta nos preços

Copom sobe o tom contra riscos fiscais e mudanças na meta de inflação
A interpretação desse cenário pelo Comitê acontece em meio a uma escalada de críticas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito a autonomia do BC. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Redação B3 Bora Investir

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) afirmou, em ata divulgada nesta terça-feira, 07/02, que vê com preocupação a alta das expectativas de inflação de longo prazo. A autoridade monetária destaca que essa piora se deu diante dos riscos de uma política fiscal expansionista e alteração de metas de inflação como fatores que pressionam a alta dos preços no longo prazo.

A interpretação desse cenário pelo Comitê acontece em meio a uma escalada de críticas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito a autonomia do BC e a gestão do seu presidente, Roberto Campos Neto no controle da inflação e pelo atual patamar dos juros. Ontem, durante posse de Aloizio Mercadante no BNDES, Lula subiu o tom das críticas. Disse que é uma “vergonha esse aumento de juros e a explicação que o Copom dá para a sociedade”.

“O Comitê notou com especial preocupação a deterioração das expectativas de inflação de prazos mais longos. Tal deterioração pode ter ocorrido por diversas razões, destacando-se, dentre esses fatores, uma possível percepção de leniência [tolerância excessiva] do Banco Central com as metas estipuladas pelo Conselho Monetário Nacional, uma política fiscal expansionista, que pressione a demanda agregada ao longo do horizonte de projeções, ou a possibilidade de alteração das metas de inflação ora definidas”, diz o documento.

A ata da última reunião do Copom, que manteve a Selic em 13,75% ao ano, reforçou a preocupação com a desaceleração da economia, com o mercado de trabalho e as incertezas da política fiscal.

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BC segue ‘atento’

Diante dessa análise, após dois anos sem cumprir a meta, o BC enfatizou que “irá atuar para garantir que a inflação convirja para as metas”. O BC também reafirmou seu compromisso com a condução da política monetária e que, por causa da desancoragem das expectativas, se manterá “ainda mais atento” para “reduzir o custo futuro da desinflação”.

Em relação à política fiscal expansionista, o Copom afirmou que “estímulos de demanda devem ser avaliados considerando o estágio do ciclo econômico e o grau de ociosidade na economia, sendo a política monetária a variável de ajuste macroeconômico utilizada para mitigar os efeitos porventura inflacionários da política fiscal”.

Copom reconhece ‘Pacote Fiscal’ de Haddad

Na última reunião do Comitê de Política Monetária, os membros reconheceram que a execução do pacote fiscal anunciado pelo Ministério da Fazenda “atenuaria os estímulos” sobre a demanda, reduzindo o risco de alta sobre a inflação.

“O Comitê manteve sua governança usual de incorporar as políticas já aprovadas em lei, mas reconhece que a execução de tal pacote atenuaria os estímulos fiscais sobre a demanda, reduzindo o risco de alta sobre a inflação. (…) Alguns membros notaram que a execução do pacote apresentado pelo Ministério da Fazenda deveria atenuar o risco fiscal e que será importante acompanhar os desafios na sua implementação”, disse na ata.

O BC também explicou que há dois riscos na área fiscal que se interseccionam. Um é o novo arcabouço fiscal – que ainda precisa ser enviado pelo governo ao congresso. O segundo são os estímulos fiscais – lê-se aqui a PEC da Transição que autorizou gastos acima do teto para pagar o Bolsa Família.

“Em primeiro lugar, a revisão do arcabouço fiscal diminui a visibilidade sobre as contas públicas para os próximos anos, introduz prêmios nos preços de ativos e impacta as expectativas de inflação. (…) Em segundo lugar, no que tange aos estímulos fiscais, o Copom seguirá acompanhando seus impactos sobre atividade e inflação e reforça que, em ambiente de hiato do produto reduzido, os impactos sobre a inflação tendem a se sobrepor aos impactos almejados sobre a atividade”, afirmou o documento.

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Cenário de inflação

Em relação ao cenário inflacionário, o Comitê de Política Monetária reforçou que a apesar da desaceleração na margem, a inflação ao consumidor continua elevada.

“Os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, que apresentam maior inércia inflacionária, mantêm-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação, ainda que tenham apresentado alguma moderação na margem”, afirma o documento

Do lado dos setores, segundo o BC, foi o de serviços que tem apresentado uma moderação nos preços. No entanto, “segue em nível incompatível com a meta”.

Haddad fala em ata mais amigável

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou hoje que a ata do Copom veio num tom mais “amigável” em relação às políticas adotadas pelo governo Lula. Ele também afirmou que iniciou a discussão sobre alterações nas metas de inflação – que são fixadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com a ministra do Planejamento, Simone Tebet, nesta terça-feira. No entanto, Haddad não deu mais detalhes sobre esse debate.

“Hoje teve a ata do Copom, que veio melhor que o comunicado. Uma ata mais extensa e analítica, colocando pontos importantes sobre o Ministério da Fazenda. É uma ata mais amigável em relação aos próximos passos a serem tomados”, disse.

A próxima reunião do CMN está marcada para 16 de abril.

“Isso vai ser discutido pelo governo para a gente adotar os próximos passos. (…) A coordenação [políticas fiscal e monetária] tem duas mãos. O que eu sempre defendo é a harmonização da política monetária e da política fiscal. A ideia é que são braços do mesmo organismo e tem de trabalhar juntos, em proveito do crescimento com baixa inflação”.

Na avaliação do ministro, o pacote fiscal proposto em janeiro, dá provas de que o governo está preocupado com as contas públicas.

“Estamos fazendo a lição de casa, melhorando a questão da receita, nos dois lados. O bom contribuinte, que vai ser mais bem tratado e das pendências que vão ter uma equação, e a despesa. Para isso vamos ter um novo arcabouço fiscal, que vai sair em abril, porque temos a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que exige compatibilidade”, completou Haddad.

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