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Investidor precisa ter mais transparência e perguntar mais, diz Luciane Ribeiro, da 3V Capital

Ao Bora Investir, sócia do multifamily office 3V Capital diz que momento de inversão de expectativas exige autoconhecimento e transição gradativa da carteira para a renda variável

Luciane Ribeiro, sócia do multifamily office 3V Capital. Foto: Arquivo pessoal/ Divulgação
Luciane Ribeiro, sócia do multifamily office 3V Capital: resolução 172 da CVM, que passou a vigorar a partir deste mês, amplia transparência do mercado. Foto: Arquivo pessoal/ Divulgação

Por Marília Almeida

O mercado financeiro está otimista em relação ao segundo semestre do ano. Após um período de alta intensa dos juros, a perspectiva é de que a Selic seja mantida nesta semana para, em agosto, começar o seu gradual processo de queda.

Isso deve ajudar a economia e também a renda variável. Mas o cenário ainda exige cautela do investidor. Por isso, Luciane Ribeiro, sócia da 3V Capital, recomenda que mudanças no portfólio sejam feitas de forma gradativa e amplamente questionadas.

“Recebo portfólios no escritório que considero preocupantes. O cliente precisa perguntar quanto está custando cada aplicação, comparar quanto paga em fundos, em COEs. É algo que ele tem capacidade para fazer. Em fundos ele já aprendeu que tem de olhar a taxa de administração”. A entrada em vigor da Resolução 172 da CVM neste mês, que exige que assessores de investimentos divulguem suas remunerações, irá contribuir para esse processo.

Luciane Ribeiro tem 38 anos de experiência no mercado financeiro, foi diretora da gestora do Santander e montou um multifamily office, escritório que cuida do patrimônio de famílias e empresas, há um ano e meio. Veja abaixo a entrevista completa da executiva ao Bora Investir:

Bora Investir – Muitos investidores avançaram no risco, mas foram obrigados a dar vários passos para trás de forma intensa. Agora, os bancos estão voltando a recomendar a renda variável. Como colocar o pé na água novamente?

Luciane Ribeiro Temos de tomar um pouco de cuidado. A indústria evoluiu muito, a CVM tem um posicionamento ativo em relação a preocupações do próprio mercado e vem realizando alterações regulatórias que trazem mais transparência em informações que todos deveriam olhar. Mas a autarquia postergou a vigência da Resolução 175, nova norma para fundos de investimento, para outubro. Contudo, a resolução 172, que trata dos assessores de investimentos, entrou em vigor agora em junho.

O investidor precisa se conhecer melhor. Já falamos muito sobre o famoso suitability, que é um questionário importante, que o cliente responde ao investir. Tem gente que acha que tem vocação para estar na bolsa e depois que compra uma ação percebe que não. Precisa se perguntar se todo dia busca saber quanto rende o dinheiro dele ou tem mais tranquilidade sobre o que faz, pois não precisará do recurso no curto prazo. Conhecer suas necessidades é importante na hora de saber onde investir.

O processo de educação financeira vem evoluindo e é um movimento importante, mas ainda temos muito a fazer nessa área. Muitos clientes meus compram investimentos de renda fixa, mas de muito longo prazo, como Tesouro IPCA+ 2055. São 32 anos de um investimento que tem volatilidade de bolsa, para ter ideia do tamanho do risco embutido. Mas o cliente não sabe.

O investidor precisa mudar seu portfólio de forma mais gradativa, e não querer ir para a bolsa diretamente se não está acostumado a ver muita variação na carteira. Talvez não precise, neste momento, avançar no risco. Quando a taxa de juros começar a reduzir, aí talvez faça mais sentido. Como o Brasil sempre teve taxas elevadas, o investidor está muito acostumado com a renda fixa.

Ou seja, o investidor precisa perguntar mais, ter conforto sobre o que aplica. Ainda temos uma interferência grande na hora de definir ou sugerir a alocação de um portfólio ao investidor, mas é importante o cliente conhecer também. Eu sempre busco fazer esse trabalho de explicar quais tipos de aplicações sofrem interferência da Selic ou não, e o que significa um título ser indexado ao IPCA.

Os bancos têm papel importante, assim como a Anbima e a B3, neste processo. Precisam contribuir para a educação financeira.

Bora Investir – O que terá maior impacto na evolução do mercado entre as novidades para o ano?

Luciane Ribeiro  A Resolução 175 terá uma padronização de documentos, o que é muito importante. Cada banco no qual você faz seus investimentos tem uma escrita, um contrato e um regulamento com um padrão próprio. Isso dificulta o conhecimento do investidor.

Além disso, agora o pequeno investidor poderá investir em fundos que investem 100% dos recursos no exterior, algo que antes era acessado apenas pelo investidor qualificado. É uma demanda no mercado que vem em uma hora interessante.

Na Resolução 172 a transparência é o destaque. Os agentes autônomos agora serão assessores de investimentos e terão de divulgar sua remuneração. É uma evolução muito importante. Caso contrário, fica muito tendencioso, pois o cliente não sabe como buscar a informação e de que forma a remuneração é calculada.

Como pontos principais esses três tópicos me deixaram felizes, pois reforçam a diversificação de investimentos e transparência do mercado. O cliente precisa perguntar quanto está custando cada aplicação, comparar quanto paga em fundo, em COE, como é processo de remuneração do seu assessor. É algo que o pequeno tem capacidade para fazer. Em fundos ele já aprendeu que tem de olhar taxa de administração.

Vejo portfólios que chegam ao escritório e que considero muito preocupantes. Às vezes são patrimônios grandes com ativos de longo prazo, sem marcar a mercado. O cliente fica com a ilusão de que está recebendo a taxa todo mês. Nós, como agentes do mercado, temos de ajudar a educação financeira a chegar mais rápido, para melhorar rapidamente esse processo.

Bora Investir – Qual a importância da marcação do portfólio a mercado?

Luciane Ribeiro  Os fundos de investimento são obrigados a marcar todos os ativos a mercado, mas as carteiras administradas, que são as que clientes têm em bancos, assessores e multifamily offices, não precisam. Os fundos que fazem parte da carteira sim, mas debêntures, LCIs, LCAs e CDBs não precisam. A partir de janeiro houve uma norma da Anbima exigindo que as carteiras sejam marcadas a mercado também, mas alguns ativos ainda não são, como CDBs e Letras Financeiras.

Estamos evoluindo, mas o cliente pode assinar uma carta e dizer que não quer marcar sua carteira a mercado. Contudo, eu sempre recomendo que façam isso. É uma situação mais confortável saber o valor dos ativos no momento zero. É importante ter consciência de que é possível perder mesmo em ativos de renda fixa.

Nos fundos de renda fixa os investidores já aprenderam que podem perder porque há essa obrigação. Agora mesmo tivemos um problema de crédito, impulsionado por Lojas Americanas. É um movimento que faz parte: o fundo de renda fixa é diversificado, tem vários riscos lá dentro, mas pode acontecer de ter uma fatia em um ativo que tem problema. Mas se isso está marcado a mercado você sabe exatamente quanto vale o seu dinheiro naquele dia.

Logicamente nós iremos fazer a nossa recomendação neste processo. Dizer a ele que não precisa se assustar, que é natural que isso aconteça por essas razões. Iremos reforçar para que não resgate e realize o prejuízo, pois isso não faz o menor sentido. Como daqui a pouco o mercado irá se recuperar o retorno vai voltar a ser melhor.

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Prefiro realizar esse movimento do que deixar o cliente com ilusão de que está recebendo o mesmo valor todo mês. Caso contrário, se amanhã ele precisar vender o título, ele vai vender sem saber que poderá realizar um prejuízo.

Dessa forma, fica mais difícil o processo de convencimento do cliente. Tivemos problemas de marcação a mercado recentes em um banco digital com muitos clientes pequenos. Houve uma quantidade enorme de saques provavelmente no pior momento para o cliente. Mas sem informação adequada ele vai lá e resgata. O mercado é cíclico: você não vai perder nem ganhar o tempo todo. Por isso a diversificação é tão importante.

Bora Investir – O que dizer agora para quem investe em fundos multimercados? Mesmo gestoras como a Verde vêm registrando baixa rentabilidade. É um ambiente que exige mais diversificação do que pânico?

Luciane Ribeiro  Fundos multimercados têm a prerrogativa de estarem comprados e vendidos nos mercados. Mas temos histórico no Brasil de que a maioria vão bem em ciclos positivos, e não tão bem nos negativos. Com taxas de juros altas, é necessário verificar quanto eles geram de retorno adicional ao CDI.

Muitos clientes olham e resolvem ficar no CDI, não veem por que pagar taxa de 2% ao ano para receber o mesmo que em um produto que não tem risco. Todos buscam ganhar o máximo possível acima do CDI para justificar o seu trabalho. É difícil: se as taxa de juros estivesse em 7%, teriam de gerar 1,40% a mais de retorno, e não 3%, como agora.

Esse tipo de investimento é como bolsa: não é para fazer no curto prazo e ficar olhando todo dia. Precisa ser feito por dois, três anos, pelo menos, para verificar se faz sentido realizar o lucro ou não. Na 3V diminuímos bastante a parcela de renda variável do meio de 2022 para cá porque haviam incertezas e prevíamos alta dos juros. Agora, nos últimos dois meses, aumentamos um pouco: não voltamos nos níveis anteriores porque a Selic continua muito alta.

Bora Investir – Muitas pessoas focam em investimentos, mas esquecem que outras esferas do planejamento financeiro são tão importantes quanto.

Luciane Ribeiro  A parte tributária e fiscal às vezes é mais importante do que olhar quanto rende o investimento todo mês, pois o ganho pode ser maior do que os 3,5% que ganharia no ano com rendimentos.

O primeiro movimento é entender qual parte do patrimônio é imobilizada, é investimento e renda. Depois, é necessário fazer um planejamento tributário para verificar se estão no veículo correto. Se é uma pessoa física, deve buscar comprar aplicações isentas do pagamento de IR. É um planejamento fundamental. Às vezes existem investimentos no lugar errado: estão na empresa quando poderiam estar na pessoa física.

Muitas empresas que passam da fase de investimentos continuam sem distribuir dividendos e aí os acionistas poderiam deixar de pagar impostos, mas continuam a pagar.

Outro planejamento importante é o sucessório. Sabemos que iremos morrer, mas não gostamos de falar sobre isso. Mas no pós-pandemia todos sentiram isso de forma mais próxima, pois conhecem pessoas que tiveram problemas. Como resultado, passaram a se preocupar com esse processo.

Se amanhã não estiver mais aqui, seu dinheiro está no lugar certo, doou para o filho, fez testamento? A Previdência o recurso investido não entra no inventário e não precisa esperar por ele. Ou podem esperar e se beneficiar da alíquota futura. Podem ser feitas doações em vida, de forma a não pagar o imposto sobre transmissão. Aumentou o número de investidores menores que estão se mobilizando para isso.

Há ainda o planejamento financeiro. A pessoa vai envelhecendo e quer saber se vai ter renda até morrer. Isso porque a renda diminui e a previdência irá gerar um valor inferior ao do trabalho antigo. E é possível fazer projeções com o nível de despesa atual. Caso não seja possível manter o nível de vida, é preciso planejar o corte de despesas.

Bora Investir – Como você olha o cenário de family offices atualmente? O que há de novidades?

Luciane Ribeiro  A grande mudança no mercado, especialmente no último ano, são agentes autônomos mudando o seu modelo negócio para agregar o modelo de gestão de fortunas dos family offices. Assessores começaram a comprar wealths ou montam equipes dedicadas para a área.

Com a Resolução 172 eles perderam a exclusividade e podem trabalhar com mais de uma corretora. Então, isso traz mais concorrência ao mercado. Nesse cenário, entendem que seja necessário captar mais recursos: os clientes costumam deixar uma parcela pequena com o assessor e uma maior com o family office. Como resultado, tentam agregar essa oferta ao serviço que prestam.

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Do lado dos family offices, cada vez mais eles se tornam gestoras, porque podem fazer gerenciar fundos próprios ou FoFs (fundos de fundos). Faz sentido para o trabalho usar essas estruturas. Contudo, o número de gestoras, segundo a Anbima, cresceu muito nos últimos dois anos. Em 18 meses saímos de 700 para 919 gestoras. São 57 mil fundos. Nem nos Estados Unidos existem tantos: existiam 8,6 mil mutual funds em 2021. Apenas 549 fundos têm mais de 10 anos de vida, ou seja, 1% da base. Os outros são recentes porque as gestoras são novas.

A indústria cresce de forma muito rápida e já vem acontecendo um processo de consolidação, que pode ser ainda mais intenso agora. Montar uma asset implica em investimentos elevados, especialmente em pessoas. Tem muita asset que cresce e depois encolhe, acaba se juntando a outra.

Bora Investir – Você foi uma executiva pioneira no mercado ao assumir a liderança de uma asset. Evoluímos no quesito desigualdade de gênero nas instituições financeiras desde então?

Luciane Ribeiro  Minha experiência é bem interessante. Venho de uma época na qual não existiam mulheres no mercado financeiro. Mas evoluímos, sem dúvida. A participação de mulheres é maior, mas onde pega ainda são cargos de liderança em assets, bancos e no mercado como um todo.

Há uma série de explicações para isso, que passa por um processo cultural e também pela maternidade. Analisando os motivos, resolvemos fazer, na Bloomberg e Will, parcerias com os bancos Deutsche e BNP e patrocinar o programa Dn´A Women, onde damos curso para mulheres recém-formadas.

A mulher tem restrição a seguir carreira no mercado financeiro no momento zero. É opção de vida não ir para o mercado: elas não querem passar por determinadas situações ou discutirem em uma reunião repleta de homens. Queremos fazer o trabalho contrário, mostrar que o mercado não é isso e que a postura da mulher é diferente e mais do que necessária. Depois, buscamos alocá-las nos bancos.

As mulheres sempre têm problemas de autoestima, acham que não estão preparadas para a função e isso é uma inverdade. Há, portanto, também um trabalho de construir confiança. Queremos, sim, aumentar mulheres no mercado financeiro e este é um processo que não vai terminar nunca. Há um processo cultural de que mulher não cuida de dinheiro: mas eu venho dessa cultura e sou prova do contrário.

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