Renda variável

4 pontos para entender o impacto da ‘vaca louca’ na economia e investimentos

Papéis de empresas ligadas à produção e abate de gado bovino vivem oscilações abruptas diante de um caso da doença

Gado Nelore no pasto de fazenda. Foto: Adobe Stock
Caso da doença conhecida como EEB preocupa o mercado dado o peso do setor de pecuária no nosso mercado. Foto: Adobe Stock

Por Guilherme Naldis

As ações dos frigoríficos listados na B3 estão vivendo uma loucura. Na última quarta-feira, 22/02, a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) identificou e confirmou um caso de Encefalopatia Espongiforme Bovina, também conhecida como EEB ou “mal da vaca louca”. 

A confirmação da infecção fez com que os papéis das quatro empresas ligadas à pecuária da Bolsa despencassem. Minerva, BRF, Marfrig e JBS suspenderam o abate dos animais e viram a cotação de suas ações cair, respectivamente, 7,92%, 6,71%, 4,71% e 4,33% na mesma quarta-feira. O receio por trás do mergulho era de que o Brasil sofresse com a autos sanção de exportações para a China, que consta no contrato com o país, no caso de doenças deste tipo.

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Já na quinta, 23/02, as ações abriram em baixa profunda, mas o desempenho se inverteu graças à expectativa de que a suspensão dure pouco. Minerva registrou ganhos de 3,51%, enquanto JBS saltou 5,53% e Marfrig e BRF, 0,32% e 1,56%, nesta ordem. “A oscilação tem fundamento, mas não está só na vaca louca. Os resultados deste setor têm vindo abaixo do esperado pelo mercado”, diz Tiago Cunha, gestor da Ace Capital.

Mas, afinal, o que há por trás de tanta volatilidade? E o que o mal da vaca louca pode acarretar para a economia?

1 – O que é o mal da vaca louca?

A doença afeta o sistema nervoso dos bovinos e altera radicalmente seus comportamentos, como se estivessem loucos. Bois e vacas podem adoecer ao ingerir farinhas ou rações que contenham proteína de origem animal em sua composição. Alguns exemplos são resíduos de carne e ossos, tecidos nervosos, cama-de-aviário ou dejetos de suínos.

A EEB pode matar os animais infectados e ser transmitido para humanos. A infecção em pessoas acontece quando se ingere a carne contaminada ou se entra em contato. 

No Brasil, alimentar ruminantes com resíduos de outros animais é crime federal, que consta na Instrução Normativa nº 8/2004 do Código Penal. A razão é que o ato pode, além de matar os animais e infectar seres humanos, causar danos enormes para a economia do país.

2 – Por que o Brasil se auto-sancionaria?

Há um protocolo entre Brasil e China que obriga os exportadores brasileiros a suspender, de imediato, as vendas aos chineses no caso de vaca louca. O tratado sanitário oficial passou a valer na última quinta-feira, interrompendo as exportações para a China temporariamente.

O caso registrado no Pará aconteceu em uma pequena propriedade no município de Marabá. A infecção se deu em um animal macho de nove anos, considerado idoso. Uma amostra dos tecidos do boi foi enviada ao laboratório da Organização Internacional de Saúde Animal, em Alberta, no Canadá. 

Lá, será dito se o caso é “atípico” – quando a doença aparece espontaneamente em bovinos mais velhos e não apresenta chance de disseminação para o restante do rebanho ou para humanos – ou se se trata de uma infecção mais preocupante. Se o caso não apresentar grandes ameaças, a expectativa é que as exportações voltem em breve.

Pedro Serra, chefe de pesquisa da Ativa Investimentos, afirma que as chances do mal ser contagioso são mínimas em razão das condições de criação mais recorrentes do Brasil. “A produção de bovinos daqui é feita no pasto, e esse tipo de doença está muito relacionada à ração que os bois comem lá fora. Geralmente, o produtor brasileiro só coloca o gado para comer ração nos últimos meses de vida, a fim de engordar e vender mais caro”, justifica, otimista.

3 – Qual o tamanho do impacto econômico?

Que a agropecuária detém um naco relevante da nossa economia, você já sabe. Afinal, quando as ações dos frigoríficos mergulharam na quarta-feira de cinzas, levaram o Ibovespa inteiro consigo.

Se confirmada a versão grave da doença, os desdobramentos para os ativos podem ser ainda mais dramáticos para estas companhias. Isso porque a China é a maior compradora de proteína animal do Brasil e possui participação relevante nos números dos frigoríficos. Para se ter uma ideia, entre 20% e 25% da receita da Minerva, uma das maiores do setor, vem das vendas para a China.

Para conter o déficit de produção, tanto a Marfrig quanto a Minerva afirmaram que vão utilizar suas plantas de carne bovina na Argentina e Uruguai para seguir atendendo a demanda do país asiático. Heitor Martins, especialista em renda variável na Nexgen Capital, afirma que o novo embargo não deve ter impacto nos próximos balanços destas firmas, ao passo que elas têm muitos abatedouros fora do Brasil, o que pode manter o volume de exportações alto. 

“Apesar de ser um caso atípico e muito raro no Brasil, ainda é um tema que pode causar impacto nas relações comerciais da commoditie. Entretanto, é preciso reforçar que o caso ainda está sendo investigado, por isso é preciso ter cautela neste momento”, diz Martins.

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4 – O que aconteceu nos casos passados?

A doença da vaca louca nunca encontrou terreno fértil para sua disseminação generalizada no Brasil. Mas, em anos recentes, dois episódios similares do mal “atípico” se situam, em condições muito semelhantes às atuais. 

O primeiro caso foi em 2019, cujo embargo durou duas semanas. O seguinte, em 2021, levou três meses até sua revogação. O episódio mais recente contava com um agravante político – o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Eduardo Bolsonaro, do mesmo partido, vivia uma série de atritos com o então embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming.

Serra, da Ativa, faz um contraponto à situação pessimista. Ele afirma que a disponibilidade de carne no Brasil está melhorando e o último balanço da Minerva indicou um possível “ciclo do boi positivo”. “Estão tendo mais bois no pasto, o que quer dizer que os frigoríficos vão comprá-los por preços menores e reduzir as pressão sobre suas margens brutas”, diz.

Ele ainda afirma que, se concretizado, o ciclo do boi pode diminuir o preço da carne para o consumo interno e, portanto, aliviar o peso da alimentação na inflação.

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