Conheça a história do trader que abandonou a feira para negociar na bolsa
Guilherme Pianco cresceu e se desenvolveu profissionalmente na feira antes de se dedicar integralmente ao day trade
Por Victor Rabelo
Qualquer pessoa que já passou por uma feira de rua sabe que este é um ambiente propício para os negócios. Seja para a freguesia, que busca a melhor relação entre preço e qualidade, seja para os feirantes, que procuram atrair as atenções para sua barraca. E foi nesse ambiente que o investidor Guilherme Pianco cresceu e se desenvolveu profissionalmente antes de se dedicar integralmente ao day trade.
Filho de feirantes, Pianco cresceu ajudando o pai na feira e aprendendo, desde cedo, o valor do dinheiro e da persistência. Foi na feira também que ele conseguiu garantir o próprio sustento e ainda guardar um pouco do dinheiro para investir.
Golpe financeiro
Porém, na ânsia de querer mudar rápido de patamar financeiro, Pianco acabou caindo em um golpe, um típico esquema de pirâmide financeira. A promessa era simples: ele faria um aporte inicial de R$ 1.200 e esse valor seria investido em ações para multiplicar o capital. Confiando em um colega de feira que já participava, ele aportou, mas nunca mais viu a cor do dinheiro. “Depois de ter caído nesse golpe, eu comecei a pesquisar e eu vi que o que eles prometiam fazer, que era comprar e vender ações, realmente existia, mas de uma outra forma”, diz Pianco.
Depois de estudar um pouco, ele começou a dar seus primeiros passos no mundo dos investimentos, mas, mais uma vez, acabou tendo perdas significativas no forex, mercado não regulado para negociação de moedas estrangeiras. “Recebia em real e precisava converter tudo para investir. Trabalhava o mês inteiro na feira, juntava o dinheiro e colocava no mercado. E com frequência, eu perdia”, conta.
Do forex ao mercado brasileiro
Segundo Pianco, a virada começou quando decidiu migrar para a bolsa brasileira em busca, primeiramente, de custos menores. Ao comentar com um tio sobre seus estudos, descobriu que ele também investia e já tinha certa experiência. Mas, enquanto Pianco engatinhava nos estudos sobre gráficos e análise técnica, seu tio o apresentou a leitura de fluxo.
Além disso, o parente foi o responsável por apresentar um escritório de negociação, o que fazia com a experiência de investir deixasse de ser uma atividade solitária. “Quando entrei ali, me apaixonei. Tinha umas 30 pessoas operando, cada um com seu estilo. Era como se eu estivesse dentro da bolsa”, lembra.
A trajetória no day trade, no entanto, foi de altos e baixos no início. Pianco passou por episódios de tensão, incluindo perdas significativas para seu padrão de vida no momento. Para ele, o que proporcionou uma mudança em sua maneira de operar foi o amadurecimento tanto técnico quanto emocional.
“Me perguntaram se era mais fácil pegar 1.000 pontos com cinco contratos ou cinco pontos com 1.000 contratos? Isso mudou minha cabeça”, conta. Depois disso, passou a focar em movimentos menores, mas aumentando o volume de contratos conforme ganhava confiança.
Do ponto de vista comportamental, começou a encarar qualquer lucro como tempo de operação. Ou seja, se sua meta diária fosse de cerca de R$ 100, que era mais ou menos o que ganhava na feira, qualquer ganho acima disso era considerado uma reserva para dias ruins. “Se eu ganhasse R$ 500, não parava de trabalhar na feira. Era como ganhar quatro dias a mais para errar ou melhorar.”
Conquista da independência financeira
Dividindo o tempo entre a feira e o mercado financeiro, Pianco viveu por alguns anos uma rotina exaustiva. Nos dias de feira, corria para casa para tentar aproveitar o fechamento do mercado. Quando o pregão encerrava, se dedicava aos estudos. “Eu usava muito o replay. Revivia o dia todo, via onde errei, onde acertei. Isso foi essencial para a virada de chave”, afirma.
Na lógica de operar para conseguir o mesmo valor que ganhava na feira, Pianco levou cerca de cinco anos para conseguir viver exclusivamente do mercado. A transição foi gradual, reduzindo os dias na feira aos poucos, conforme foi ganhando mais dinheiro, até permanecer apenas nos fins de semana para ajudar a família.
Por volta dos 26 anos, já estava independente financeiramente, conseguiu deixar a feira e proporcionar uma vida mais confortável aos seus familiares. Hoje, aos 32 e com uma década de experiência, mantém uma rotina regrada de operações, com gerenciamento de risco e preparo mental para evitar os chamados “dias de fúria”.
“O prejuízo dói, mas você tem que engolir. O dinheiro que perdeu já não é mais seu. Não pode tentar recuperar de qualquer jeito”, afirma Pianco sobre a mentalidade que busca alcançar quando ainda se encontra com os dias difíceis.