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Renda+ permite poupar até 40% mais para a aposentadoria do que outros investimentos, diz Marcia Dessen

Estimativa de planejadora financeira leva em consideração o prazo de 20 anos do investimento, renda de ate 6 salários mínimos e comparação com aplicações que cobram taxa de 2% ao ano

A planejadora financeira e autora de “Finanças Pessoais: O Que Fazer com Meu Dinheiro” Márcia Dessen: Foto: Divulgação
A planejadora financeira e autora de “Finanças Pessoais: O Que Fazer com Meu Dinheiro” Márcia Dessen: Foto: Divulgação

Por Marília Almeida

O planejamento financeiro para a aposentadoria é algo complexo e pessoal. Por isso mesmo, é difícil de ser explicado: não há receita de bolo. Contudo, existem meios de estimar da melhor forma o quanto será necessário de renda no futuro, além de novas aplicações financeiras que podem facilitar o cumprimento desse objetivo financeiro.

Na visão da planejadora financeira Marcia Dessen, autora de “Finanças Pessoais: O Que Fazer com Meu Dinheiro”, o título Tesouro Renda+, lançado no final do ano passado, é uma delas. “É um instrumento inovador, que obriga o brasileiro a ter disciplina e dá isenção de taxa sobre o capital investido. Comparado a um fundo que cobra taxa de 2% ao ano, ele permite acumular até 40% mais. É muita coisa”.

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Ao Bora Investir, Dessen fala sobre o choque de realidade necessário para despertar os brasileiros para pensarem na necessidade de ter uma renda complementar no período de inatividade, e se planos de previdência privada podem ser um bom investimento, e quando. Também dá dicas de como formar uma carteira de investimentos para não ter de sacrificar o estilo de vida no futuro. Acompanhe abaixo a entrevista:

Bora Investir – Existe uma maneira de guardar para a aposentadoria sem deixar de curtir a vida?

Quando você tira dinheiro do seu orçamento mensal para o futuro, está tirando do presente. O bolso é o mesmo. Para poupar para o amanhã, distante ou muito distante, você abre mão do prazer imediato, da satisfação hoje.

É comum pensarmos: depois eu cuido disso, ainda é cedo. E assim vamos postergando, adiando e, inconscientemente, cometemos um equívoco: quanto mais cedo pouparmos para o futuro, menor será a quantidade de dinheiro que teremos de tirar do bolso hoje para guardar para amanhã. Quem demora para começar, vai precisar acelerar e economizar mais, ou vai faltar dinheiro.

O brasileiro, em geral, é imediatista e consumista. Privilegia mais o hoje do que o amanhã. Tem a crença de que o futuro a Deus pertence. Mas, na verdade, nós somos os responsáveis pelo nosso futuro.

Portanto, não será um sacrifício poupar para a aposentadoria se entendermos que o futuro é tão importante quanto o presente. Será um sacrifício para aqueles que deixam para a última hora. Cabe a cada um de nós, portanto, fazer com que não seja sofrido.

Bora Investir – Quais investimentos você recomenda para aposentadoria?

O Tesouro Renda+ é, de fato, inovador. É uma ferramenta muito legal para os brasileiros se prepararem para a aposentadoria, pois exige mais disciplina.

O Tesouro IPCA+, geralmente recomendado para a aposentadoria, é um título que você pode resgatar de forma antecipada, assim como o Renda+. Mas vamos supor que você não fez o resgate antecipado do Tesouro IPCA: no vencimento do título, o dinheiro entra na sua conta. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval. Aí o risco de acabar usando para outra coisa é grande.

No Renda+ você escolhe o ano no qual o título irá vencer, e quando ele vence o dinheiro acumulado será transformado em renda e pago mensalmente: não há outro jeito de acessá-lo. Portanto, você não corre o risco de usá-lo para outra coisa, como abrir um negócio. A não ser que tire o dinheiro antes do vencimento.

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Portanto, o Renda+ ajuda a sanar a falta de disciplina: você só precisa colocar o dinheiro lá e esquecer. Naquele ano que determinou, o dinheiro voltará para você na forma de renda durante 20 anos.

Na hora de adquirir o título você sabe o quanto você tem de poupar para obter uma determinada renda no futuro. Ou seja, você se apropria da decisão de quando e como se aposentar. Não depende de incentivos do governo.

O título, contudo, não é inflexível. O investidor não é obrigado a comprar a fração da renda estimada todos os meses: pode não comprar nada em um determinado mês, pois o orçamento apertou, e comprar dois lotes no próximo. Mas é necessário ter consciência de que, quanto mais isso ocorre, mais se distanciará da meta.

Bora Investir – Como o custo do Tesouro Renda+ se compara ao de outros investimentos?

O mais sensacional no título é a isenção de custo. Ele é diferente de tudo no mercado financeiro, onde nada é de graça. Quem resiste ao desejo de vender antes do prazo, e recebe renda que não seja superior a seis salários mínimos, não terá qualquer custo com taxas. Mesmo quem ganha mais de seis salários mínimos pagará apenas taxa sobre o que exceder esse valor.

No Tesouro IPCA você paga 0,20% de taxa por ano. Mas quem resolve acumular para a aposentadoria em fundos de investimento e fundos de previdência complementar sabe que são produtos mais caros. Não é uma crítica, é um fato.

Vou ser boazinha: vamos pensar em produtos que cobram taxa de 1% ou 2% ao ano, o que é comum especialmente em produtos para a baixa renda. Alguém que tenha 35 anos e deseja receber renda a partir dos 55 anos deixará 20% do patrimônio na mesa. caso opte por produtos com taxa de 1% ao ano, e 40%, caso opte por produtos com taxa de 2%.

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Perceba que estou apenas mencionando o custo, não estou incluindo a rentabilidade na conta. Ou seja, o rendimento do investimento teria de ser extremamente alto para compensar este custo. Isso porque a taxa de administração do produto recai sobre o capital acumulado, e não sobre o rendimento.

As pessoas só abraçam um projeto de longo prazo se tiverem um motivo muito forte para isso. Se acha que vai ganhar na loteria, por exemplo, dificilmente vai ver incentivos neste projeto de longo prazo. Mas o Renda+ te dá uma forte motivação, que é não cobrar nada.

O investidor apenas pagará imposto sobre o rendimento, que pagaria em qualquer outro investimento. Nos fundos de previdência, o pagamento de impostos é apenas postergado.

Bora Investir –  O investimento no Tesouro Renda+ protege contra a inflação?

Sim. As 240 parcelas mensais que serão pagas pelo título são corrigidas pela inflação. Portanto, em 20 anos você terá o mesmo poder compra com a mesma quantidade de dinheiro que investiu. Senão, você fará o esforço de guardar e irá descobrir que não guardou o suficiente.

Isso também pode acontecer porque você estimou uma rentabilidade maior do que a de fato foi registrada ou não poupou todos os meses. Tem gente que poupa mais quando sobra dinheiro. Mas o futuro é maior do que uma sobra. Claro que o presente ou o nascimento dos filhos também são prioridades. O futuro não é a única prioridade, mas é uma das mais importantes.

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No presente você tem saúde, está vivo, trabalhando e tem capacidade de produzir. Na velhice, você não tem mais chance de trabalhar. Por isso, precisa ter seu patrimônio trabalhando para você.

Bora Investir – Então é melhor investir no Tesouro Renda+ do que em planos de previdência?

São coisas diferentes. O plano de previdência tem um atributo forte para quem busca sucessão patrimonial, ou seja, está preocupado em deixar dinheiro para seus herdeiros e deseja que recebam logo, sem depender do inventário, ou precisem do dinheiro para fazer o inventário.

O inventário pode demorar para sair e custar caro. O plano de previdência não entra no inventário e em alguns estados são isentos de imposto sobre a herança, o ITCMD. Portanto, no quesito de planejamento sucessório, ele é imbatível.

Ou seja, o Tesouro Renda+ não substitui o plano de previdência, pois o dinheiro acumulado no título vai para o inventário como qualquer outro produto de investimento, e ele também está sujeito ao ITCMD. Mas o ITCMD será de, no máximo, 8% do capital, enquanto o investidor pode economizar 20% sobre o capital com taxas. Ou seja, mesmo que pague o ITCMD ele ainda sairá ganhando dos planos de previdência no quesito custo.

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Portanto, o Tesouro Renda+ é mais um investimento para a aposentadoria. Ele não excluiu outras aplicações. Até mesmo o Tesouro IPCA+ pode ser importante para quem deseja comprar um imóvel ou gastar o dinheiro quando o título vencer. Mas para quem sabe que não tem disciplina e pode não ter muito dinheiro na mão, o Renda+ é perfeito.

Existem planos de previdência muito bons, com boa rentabilidade e taxas justas. Mas qual faixa da população tem acesso a esses produtos? E quantos conhecem esses produtos? Alguns fundos exigem R$ 5 mil como aplicação inicial, mas uma faixa da população tem R$ 100 por mês. É possível comprar o Renda+ por a partir de R$ 30 reais. Ou seja, não precisa ter muito dinheiro para ter acesso a um produto muito legal.

Alguns planos de previdência também podem ser convertidos em renda, como o Renda+. Mas a seguradora usa uma medida estatística chamada tábua atuarial, que é complexa e difícil de entender. A maioria oferece dois ou três tipos de renda, e a renda vitalícia, paga durante a vida toda, nem todos oferecem. A renda vitalícia que possa ser revertida para um beneficiário é mais difícil ainda de encontrar. E, se encontrar, naturalmente será cara.

Bora Investir – O benefício do INSS tende a diminuir no futuro. Como isso afeta o planejamento da aposentadoria.

O benefício do INSS tende a ser cada vez menor, pois reformas já foram feitas e outras virão. Como estamos vivendo mais, a idade de início para recebimento do benefício tende a ser adiada. Portanto, o benefício não irá atender quem quiser se aposentar mais cedo.

Atualmente, o benefício do INSS resolve o problema da baixa renda. Quem ganha um salário mínimo ou dois e se aposenta com o INSS não irá enfrentar uma quebra no padrão de vida: terá vivido na fase ativa com renda baixa e se aposentará com uma renda semelhante à que tinha.

Agora, quem ganha acima do teto, que é R$ 7 mil, e vale lembrar que para ganhar o teto precisa cumprir todos os requisitos de idade e período de contribuição, vai ficar cada vez mais difícil manter o padrão de vida. Portanto, para os mais afortunados, a renda complementar é fundamental.

Quem não criar uma renda complementar terá de mudar o seu padrão de vida: não tem mágica. Terá trabalhado a vida toda e na hora de desfrutar descobrirá que o que tem não é suficiente e não terá a vida que queria. Terá, pelo contrário, de fazer ajustes.

Para a baixa renda que puder planejar uma renda complementar, é provável que terá um futuro melhor do que a sua vida atual.

Bora Investir – O que as pessoas precisam entender sobre os gastos na aposentadoria?

A partir do momento em que se aposenta o investidor tem de pensar que os próximos vinte anos serão seus melhores anos: ainda terá vitalidade, poderá viajar e desfrutar da vida. Se viver mais 10 anos, pode precisar de menos dinheiro, porque a vitalidade vai diminuir.

A melhor carteira de investimentos depende, portanto, da expectativa de vida e estrutura familiar. Ela será diferente para alguém solteiro sem filhos, casado com filhos e netos e para quem é casado e os pais dependam financeiramente dele. Existem diversas estruturas familiares. Portanto, não há um produto melhor: depende para quem é, quando e por quanto tempo.

Os meus pais viveram até os 97 anos, e foram saudáveis durante todo esse tempo. Mas para ter qualidade de vida nessa idade, gasta-se muito com cuidados. E isso porque eram saudáveis: quem dirá doentes. Foram, durante um tempo, a maior despesa do meu orçamento familiar, pois já tenho filhos independentes. Tenho dois irmãos, e nós três demos conta dos gastos gerados pela vida longeva dos meus pais.

Portanto, indico aos meus clientes que primeiro devem planejar a vida: o que desejam fazer na aposentadoria e quando querem parar. Depois, as finanças: quanto dinheiro vão precisar. Por último, devem escolher o produto mais adequado para esses objetivos: se vão investir no Tesouro, previdência, ações ou imóveis. Não dá para começar pelo produto: é aí que as pessoas erram.

Bora Investir –  O que muita gente esquece de inserir no planejamento para a aposentadoria? Sei que seguros são geralmente colocado de lado, mas podem ter um grande valor.

Já vi um casal de médicos na faixa dos 50 anos que tinham dois filhos pré-adolescentes e um deles morreu repentinamente. Como resultado: metade da renda da família desapareceu do dia para a noite. O marido só não ficou doido porque recebeu R$ 1 milhão do seguro de vida que sua esposa tinha feito.

Quando um casal tem um filho pequeno, e apenas um deles gera renda, o seguro de vida é essencial. Toda a renda da família pode desaparecer caso o provedor da família venha a falecer, e os filhos ainda vão demorar para se tornarem independentes financeiramente.

Diferente de um plano de saúde, acredito que um seguro de vida é para qualquer um, especialmente se o risco for considerado elevado ou o impacto financeiro de uma perda na família for muito alto.

Para saber ainda mais sobre investimentos educação financeira, não deixe de visitar o Hub de Educação da B3.

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