Todo bem é um investimento? Entenda quando um bem pode gerar retorno
Aumento de produtividade, geração de renda e potencial de valorização são atributos que diferenciam itens considerados investimentos daqueles classificados como bens de consumo
Ao falar de finanças, é comum pensar que determinados bens também podem ser considerados investimentos, seja pelo potencial de geração de renda ou pela expectativa de valorização e construção de patrimônio no longo prazo.
A realidade, contudo, é que a categorização de um bem como investimento dependerá de alguns fatores para além do item por si só. Ao usar uma definição ampla, um bem só se transfigura em um investimento quando há a expectativa de benefício econômico futuro, por meio do aumento da produtividade e da geração de renda ou pela valorização do próprio bem.
Esses atributos independem do valor desse bem. Um livro que custe algumas dezenas de reais, mas cujo conteúdo será útil para fins de trabalho ou de estudo, pode ser considerado como investimento, enquanto um relógio ou uma joia valiosa não necessariamente terão a mesma capacidade inerente de gerar ganho de produtividade.
“Um bem que vira investimento é justamente aquele que você compra na expectativa de ter algum ganho futuro com ele, seja por valorização ou geração de renda, enquanto os bens de consumo depreciam mais rapidamente”, explica Ricardo Rochman, professor de Finanças da FGV EAESP.
De certa forma, a linha que separa as duas definições acaba sendo relativamente tênue. Isso porque um mesmo bem pode ser ou não investimento a depender do uso atribuído a ele.
“Não se trata do bem em si. Claro, se você pegar o exemplo de uma betoneira, não é algo muito voltado para uso pessoal. Agora, itens mais corriqueiros, como um celular, a caracterização dele como um investimento estará atrelada à sua finalidade”, ressalta a economista do Insper Juliana Inhasz Kessler.
Nesse sentido, um mesmo celular, quando usado para trabalhos voltados para tecnologia ou redes sociais, de forma a potencializar a produtividade e gerar ganho de capital, pode, sim, ser classificado como um investimento.
“Hoje em dia, com essa explosão de pessoas trabalhando com mídias sociais, investir num celular de ponta pode valer a pena, porque é uma forma de gerar renda, entregar um serviço de melhor qualidade. Por outro lado, se for um celular somente para entretenimento, aí realmente ele acaba sendo meramente um bem de consumo”, acrescenta Kessler.
Por sua vez, mesmo que um bem se desvalorize com o tempo, ele ainda pode ser considerado um investimento caso tenha gerado ganhos durante determinado período. Um exemplo disso seria um carro, um item que, salvo exceções (como carros de colecionadores), possui baixo potencial de valorização. Esse carro pode ser inserido na categoria de investimento se, de algum modo, aumentar a produtividade ou gerar ganhos para o investidor, ainda que se desvalorize após isso.
Investimento pela valorização
No caso de itens de luxo, como joias, obras de arte ou outros itens de colecionadores, esses bens podem ser considerados investimentos, mas sob um prisma diferente. Nessa categoria, o investimento financeiro, que é dissociado daquele relacionado à produtividade, se dá por meio do potencial de valorização desses itens ao longo do tempo, que ocorre com base em características associadas à raridade e ao prestígio daquele determinado bem.
Rochman aponta que esses atributos ligados à exclusividade e à escassez do item são o que diferenciam, por exemplo, a aquisição de uma peça de ouro da compra de ativos ligados ao ouro na bolsa ou em corretoras.
“A commodity ouro tem um baixo grau de diferenciação. Adquirir ouro na bolsa ou por meio de corretoras não tem diferença prática, enquanto uma joia tem valor agregado: o design dela, a assinatura do artista que fez aquela peça. É a questão da escassez, da exclusividade”, afirma.
“Isso acontece com outros produtos também. Obras de arte, itens colecionáveis. Um quadro de Portinari, Volpi ou Tarsila é um objeto raro, e de autores considerados geniais. Existe ali um valor que diferencia essas obras de um desenho feito por mim ou por você”, acrescenta.
A valorização, porém, não dependerá exclusivamente da raridade de determinado objeto. Os especialistas ressaltam que, para que esse processo ocorra, é necessário que haja uma demanda por aquele item específico.
O perigo da ostentação
Um outro lado desse aspecto consiste num elemento que pode se tornar uma armadilha para as finanças: a justificativa de que qualquer tipo de aquisição é um investimento, o que pode resultar num tipo de comportamento mais compulsivo, fortemente associado à ostentação e à busca de status social por meio da aquisição de bens de consumo.
“É crucial entender o que é bem de consumo e o que é investimento. Existe uma ideia de que ter um bem de luxo, o exemplo do celular topo de linha, pode colocar o usuário num patamar diferente, em que aquela pessoa passa a ser valorizada em determinado meio social. Só que nada disso transforma o celular, por si só, em um investimento, a não ser que ele traga algum fluxo de renda”, afirma Juliana Kessler.
Segundo a economista, o mesmo vale para itens como roupas de marca, uma garrafa de vinho antigo ou uma joia. Ela explica que não existe a garantia de que esses itens ganharão valor ao longo do tempo, e, dependendo do produto ou modelo, o “investimento” pode se tornar algo arriscado e de baixa liquidez.
“Na economia, o termo ‘investimento’ tem um significado mais amplo do que o uso cotidiano. Ele engloba aquilo que aumenta a capacidade de produção de bens e serviços, como máquinas, tecnologia”, diz.
“No caso desses itens de luxo, o investidor compra com a ideia de que, no futuro, ele conseguirá vender aquele bem por um valor mais alto. O que geralmente acontece é que alguns deles ficam mais raros ao longo do tempo, com oferta limitada. Mas isso é arriscado, não existe uma garantia de valorização do produto. É praticamente uma aposta”, acrescenta.
Imóvel: uma categoria entre os dois conceitos
Ao contrário de um bem mais efêmero, como um celular ou um carro, que possuem menor capacidade de valorização com o tempo, um imóvel é amplamente considerado um investimento, por sua margem de valorização e mesmo de geração de renda, como nos casos de imóveis adquiridos para locação.
Mesmo um imóvel cuja finalidade é a moradia, ainda que não seja adquirido necessariamente na intenção de se obter algum tipo de ganho, ainda é tido como um ativo importante na construção do patrimônio individual.
“O imóvel é um daqueles casos que serve tanto para consumo como para investimento. Ele naturalmente tem uma valorização com o tempo, pois está atrelado à inflação”, destaca Rochman.
Kessler, por sua vez, ressalta que, mesmo com o potencial de valorização, o imóvel é, geralmente, um ativo de liquidez muito baixa.
“Uma casa pode até ter esse potencial de valorização, o que também não é garantido, mas ainda assim é um ativo de liquidez muito baixa. Para essa pessoa se desfazer disso depois, ela vai ter um trabalho considerável pela frente.”