Ibovespa B3 lidera renda variável no 3º trimestre e em 2026; small caps e FIIs ainda têm perdas no ano
No acumulado de 2026, o ganho do Ibovespa foi de 15,65% e em setembro, de 5,03%.
A reprecificação de risco no Brasil fez com que o Ibovespa B3 se torne líder absoluto de desempenho na renda variável. Segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria, o principal índice da B3, liderou altas no terceiro trimestre, de 8,32%. No acumulado de 2026, o ganho foi de 15,65% e em setembro, de 5,03%.
Além do Ibovespa, integraram o pódio do 3º trimestre, o índice de BDRs (BDRX), que avançou 5,82%, seguido do Índice de Dividendos (que reúne as principais pagadoras de proventos da bolsa), com alta de 5,80%.
Já as small caps tiveram ganhos de 3,11%, enquanto o índice de fundos imobiliários (IFIX) foi o único a fechar no vermelho no trimestre, com queda de 1,97%. Veja abaixo.
| Posição | Índice | O que representa | 3º tri 2026 | Setembro | Acumulado 2026 |
| 1º | Ibovespa | Ações mais líquidas e de maior valor de mercado da B3 | +8,32% | +5,03% | +15,65% |
| 2º | BDRX | BDRs, recibos de ações estrangeiras negociados na B3 | +5,82% | +1,86% | +9,56% |
| 3º | IDIV | Ações de empresas boas pagadoras de dividendos | +5,80% | +4,45% | +13,20% |
| 4º | Small Caps (SMLL) | Ações de empresas de menor valor de mercado | +3,11% | +5,23% | -1,61% |
| 5º | IFIX | Fundos imobiliários | -1,97% | -0,20% | -0,53% |
Para Breno Falseti, sócio e gestor da Rubik Capital, o Ibovespa, BDRX e IDIV subiram puxados pelos mesmos fatores, entre estes a reprecificação de ativos no Brasil, contudo com efeitos diferentes.
Segundo ele, o Ibovespa acabou refletindo a descompressão do prêmio de risco doméstico. O trimestre combinou cortes da Selic, que chegou a 13,75%, com a queda dos juros longos, à medida que o mercado passou a precificar um cenário eleitoral mais amigável para os ativos.
“O investidor estrangeiro foi vendedor líquido no trimestre. A alta foi construída pelo investidor doméstico reprecificando o próprio país”, diz Falseti. Segundo o gestor, o capital externo só voltou com força em setembro, com aportes de R$ 9,1 bilhões, o melhor mês desde março.
João Luis Debom, sócio da Supernova Investimentos, acredita que o que puxou a bolsa brasileira foi o trade eleitoral. Ele destaca que conforme a disputa apertou nas pesquisas, o mercado passou a apostar em uma mudança de rumo na política fiscal, e os maiores beneficiados foram bancos, Petrobras e Vale.
Já Artur Horta, head de análise da GTF Capital, lembra que o investidor estrangeiro entra no Brasil majoritariamente via ETFs (fundos de índice), como o EWZ. Desta forma, a compra ocorre pelo índice inteiro e não por uma seleção de ações. “É por isso que o fluxo de recursos chega primeiro às grandes empresas do índice Ibovespa”, explica.
Inteligência Artificial impulsionou BDRs
Em relação aos BDRs (recibos de ações), os especialistas consultados pelo Bora Investir destacam que o motor da alta foi o ciclo de inteligência artificial nas bolsas americanas.
Segundo Horta, as empresas ligadas à IA já representam cerca de 40% do mercado listado nos EUA.
Falseti pondera que parte do ganho dos BDRs foi consumido pela valorização do real. “O BDR embute duas pontas: o ativo e o câmbio. Em um ano de moeda brasileira forte ele sobe menos do que os mercados de origem”, explica o gestor.
Os especialistas destacam ainda que com uma postura mais hawkish do Federal Reserve (banco central americano) sobre os juros, o fôlego dos BDRs recuou em setembro, com alta de apenas 1,86%.
Dividendos são favorecidos pela queda dos juros
Debom, da Supernova, destaca que o índice de dividendos é muito concentrado em bancos, petroleiras e empresas do setor elétrico, que coincidentemente são os mesmos setores que lideram o rali doméstico. “Com o juro caindo, os dividendos dessas empresas voltam a ficar atrativos em comparação com a renda fixa”, pontua.
Falseti reforça ainda que empresas pagadoras de dividendos se comportam como títulos longos na carteira do investidor, ou seja, quando o juro real cede, seus fluxos previsíveis valem mais. “O terceiro trimestre entregou exatamente esse vetor, somado ao carrego dos próprios proventos”, justifica.
Desempenhos fracos
No acumulado de 2026, o topo do ranking se repete, com Ibovespa (15,65%), IDIV (13,20%) e BDRX (9,56%). Na outra ponta, o IFIX (-0,53%) e small caps (-1,61%) apresentam desempenho negativo.
Para Debom, o que afeta estas duas classes de ativos é o juro real alto por muito tempo. Ele comenta que as small caps apanharam no primeiro semestre, quando a guerra no Irã fez o petróleo disparar e o índice caiu mais de 3% só em abril. O motivo, segundo ele, é que são empresas mais endividadas e dependentes da economia doméstica.
Já Horta acrescenta que small caps não recebem o mesmo fluxo estrangeiro de investimento e são mais sensíveis à curva de juros, que só começou a ceder nas últimas semanas de setembro.
Na visão de Falseti, da Rubik, as small caps não possuem um problema estrutural e sim de estágio de ciclo. Ele destaca que por conta disso as pequenas ações da bolsa lideraram o desempenho em setembro, com alta de 5,23%.
Já em relação aos FIIs, o gestor aponta que eles acompanham o desempenho da inflação e não apenas da Selic. “Com título público indexado à inflação pagando acima de IPCA+7% sem risco, o FII é obrigado a oferecer um dividend yield competitivo, o que comprime os preços”, diz Falseti.
Hugo Queiroz, sócio e gestor da Soho Capital, lembra que 2026 foi um ano de crescimento fraco, inflação e juros elevados. Uma combinação, que na visão dele, pesa mais sobre empresas menores e alavancadas, como as small caps, e impacta também o setor imobiliário, inadimplência no crédito e incorporadoras, o que repercute nos FIIs.
O que esperar do quarto trimestre?
Os especialistas avaliam que na reta final do ano, as eleições ainda pautam o movimento de alguns ativos, embora boa parte do prêmio de risco já foi antecipado, fazendo juros caírem e bolsa disparar e superar a marca de 200 mil pontos.
Para eles, a realização de lucros após a definição do novo presidente seria natural mesmo em um cenário benigno. “É o padrão clássico de comprar na expectativa e realizar no fato”, diz Falseti. A perspectiva é que até o dia 25 de outubro, data do segundo turno eleitoral, a volatilidade nos ativos permaneça elevada.
Na visão de Horta existem dois cenários. O primeiro seria no contexto de controle das contas públicas e risco fiscal amenizado, em que as small caps seriam as mais beneficiadas pelo fechamento da curva de juros e o Ibovespa avançaria com maior entrada do fluxo estrangeiro.
Já em uma situação oposta, com o risco fiscal ainda latente, os BDRs se destacariam, pela sua relação com o dólar, enquanto ações de dividendos virariam refúgio dos investidores por reunir empresas de fundamentos sólidos e perfil anticíclico.
Segundo Filipe Ferreira, professor da USP e do Insper e sócio da CTW Consultoria, se a curva de juros continuar cedendo, os ativos seguem se valorizando, mas uma surpresa que eleve a percepção de risco do Brasil faria a renda variável recuar no fim do ano.
Ativos na reta final do ano
Em relação ao Ibovespa, os especialistas acreditam que o mercado já precifica alta, que tende a se sustentar, puxada também pelos cortes da Selic que podem ocorrer em novembro e dezembro. Falseti acrescenta que o fluxo estrangeiro no ano é de R$ 27 bilhões, mas que ainda há espaço para o capital externo voltar.
Entre os riscos para o mercado acionário, os especialistas citam frustração nas urnas, petróleo instável e uma postura mais dura do Federal Reserve.
Já as ações de dividendos acabam cumprindo um papel defensivo, porque proventos amortecem correções de preço. Debom faz a ressalva que a forte presença de estatais e bancos no Índice IDIV acaba deixando o investidor sensível ao risco político, com risco de interferência política de quem vencer a corrida eleitoral.
Nos BDRs, os especialistas destacam que o rumo depende do cenário externo, com o ciclo de inteligência artificial como motor, além de valuation (avaliação) esticado dos ativos, juros altos nos EUA e real valorizado, que podem acabar limitando ganhos. “O papel dos BDRs na reta final do ano será mais de diversificação, não de oportunidade”, aponta Falseti.
Enquanto isso, os fundos imobiliários ainda seguem reféns dos juros longos e andando de lado. E as small caps podem ter potencial de virada rápida, destacam os especialistas, caso os juros ajudarem e o risco fiscal amenizar. Mas também há chances de continuarem afundando.
Queiroz, da Soho, acredita, contudo, que existem boas chances das small caps liderarem desempenhos no quarto trimestre, superando até o Ibovespa.