Copom mantém Selic em 13,75%: como ficam os investimentos nesse cenário
BC optou por interromper ciclo de cortes iniciado e manter a taxa no patamar atual
Na última quarta-feira (4), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo um ciclo de cortes de juros iniciado em março.
No comunicado divulgado após a reunião, o Copom destacou as expectativas de inflação mais elevadas, a moderação da atividade econômica e as incertezas persistentes nos cenários doméstico e internacional. O comitê também ressaltou a necessidade de acompanhar os efeitos da política fiscal sobre a política monetária e os ativos financeiros.
Agora, algumas instituições do mercado já trabalham com projeções de manutenção desse patamar, de 13,75%, ao longo de 2027, diante da desaceleração econômica e das preocupações com o endividamento público. Para o investidor, porém, como ficam as perspectivas daqui para frente?
Renda fixa sai fortalecida
O principal aspecto dessa mudança de rumo nos juros é o fortalecimento dos ativos ligados à renda fixa no curto prazo, especialmente os títulos pós-fixados.
O banco Safra, por exemplo, destacou que, nas atuais circunstâncias, essa categoria tende a oferecer “remuneração elevada e menor risco de oscilações de preço em comparação com ativos de prazo mais longo”.
Segundo a instituição, os pós-fixados ganham importância adicional diante de um contexto marcado por incertezas, que podem afetar, por exemplo, os ativos com vencimentos de longo prazo, mais suscetíveis a variações nas curvas de juros, especialmente em um ambiente de pressão fiscal e inflacionária.
Essa posição dialoga com a adotada pela XP Investimentos, que ressaltou a capacidade dos pós-fixados de capturar o momento atual de juros altos e oferecer maior liquidez ao investidor.
Em relação aos títulos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA+, com vencimentos entre três e seis anos, a corretora pondera que esses ativos podem representar uma boa oportunidade em meio à persistência dos juros elevados, além de proteger o poder de compra do dinheiro no longo prazo. Ao mesmo tempo, essa classe estaria mais vulnerável a futuras alterações nos juros de mercado, o que pode fazer os preços caírem antes do vencimento.
“Títulos prefixados e atrelados à inflação continuam fazendo sentido, desde que os vencimentos estejam alinhados aos objetivos do investidor. Os prefixados permitem contratar uma taxa conhecida, mas podem perder valor antes do vencimento se os juros de mercado subirem. Já os títulos IPCA+ oferecem uma taxa real contratada acima da inflação quando mantidos até o vencimento, respeitadas as condições do papel”, avalia Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil.
“Ambos exigem cuidado com a marcação a mercado, especialmente nos prazos longos. Proteção contra a inflação não significa estabilidade do preço no curto prazo”, acrescenta.
Aumento da percepção geral de risco
De modo geral, as principais recomendações do mercado apontam, de forma explícita ou implícita, para um aumento da percepção de risco diante de um cenário macroeconômico mais desafiador, algo também abordado pelo próprio BC no comunicado divulgado após a decisão desta quarta-feira.
Na prática, esse aumento geral do grau de risco afeta sobretudo os juros de longo prazo. As preocupações em torno das contas públicas, da inflação e do desempenho da atividade econômica podem elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores.
Isso significa que os investidores podem passar a exigir retornos maiores para assumir posições em ativos de prazos mais longos, o que pode gerar oportunidades para quem pretende investir nesses títulos e consegue manter os recursos aplicados até o vencimento.
Ao mesmo tempo, esse cenário aumenta o risco de desvalorização desses papéis no mercado secundário, especialmente para quem precisa resgatar o dinheiro antes do prazo. Por isso, a recomendação adotada por alguns agentes do mercado, como a XP, é diversificar o portfólio a fim de reduzir a concentração da carteira e torná-la mais resiliente a diferentes cenários de mercado.
Situação da renda variável e ativos internacionais
Em meio às questões próprias da economia doméstica, é fácil pensar que uma alternativa à renda fixa seria investir, por exemplo, em ativos ligados ao dólar, diante das projeções de valorização da moeda.
Praça, porém, recomenda não fazer uma aposta concreta na valorização do dólar, por ser uma variável volátil e difícil de prever no longo prazo, diretamente afetada por uma ampla gama de fatores.
“Ampliar a exposição internacional pode fazer sentido para quem tem uma carteira muito concentrada no Brasil, sobretudo como estratégia de diversificação de longo prazo. Isso permite distribuir os investimentos entre diferentes moedas, economias e setores”, diz.
“A decisão, porém, não deveria depender apenas da expectativa de alta do dólar. Se o real se valorizar, o retorno desses ativos em reais pode ser prejudicado. Aportes graduais e uma exposição compatível com os objetivos ajudam a reduzir a dependência de acertar o momento do câmbio”, acrescenta.
A renda variável, por sua vez, fica mais pressionada em um momento de juros elevados, que encarecem o crédito e, consequentemente, tornam os ativos de renda fixa mais competitivos.
Isso, contudo, não elimina os ativos de renda variável dessa equação. A recomendação de diversificação no momento atual vale não apenas para os ativos de renda fixa, mas também para a renda variável e os ativos internacionais.
O Safra, por exemplo, avalia que a diversificação da carteira é o principal instrumento de que o investidor dispõe em circunstâncias adversas e de turbulência no cenário macroeconômico.
“A alocação internacional preserva papel estratégico, pois reduz a correlação do portfólio com os riscos brasileiros e amplia o acesso a diferentes economias, moedas e setores”, afirma a instituição por meio de relatório. “Fundos multimercado, renda variável internacional e ativos alternativos também seguem relevantes conforme o perfil de cada investidor.”
Em geral, as análises consideram que o investidor conservador tende a privilegiar a renda fixa, enquanto perfis mais arrojados e dispostos a assumir riscos podem manter espaço na carteira para diferentes classes de investimento, conforme seus próprios objetivos e sua tolerância ao risco.
“A Selic elevada favorece o investidor conservador ao permitir uma remuneração nominal atraente em aplicações de menor volatilidade, como o Tesouro Selic e produtos bancários adequados ao seu perfil. Ainda é necessário comparar retorno líquido, liquidez e risco de crédito, além de considerar a inflação”, afirma Marcos Praça.
“Para quem aceita mais risco, o cenário permite manter uma parcela da carteira bem remunerada enquanto seleciona oportunidades em ações e títulos de maior prazo. Aceitar risco deve estar ligado a objetivos e capacidade de suportar perdas, sem exigir pressa para aumentar a exposição”, completa.
O especialista recomenda ainda que o investidor acompanhe indicadores como inflação, atividade econômica, câmbio e contas públicas, considerando o conjunto dos dados, e não indicadores isolados.